Filosofia - História da Filosofia (2)
René Descartes (1596 - 1650)
Descartes visualizou a filosofia como uma árvore onde a metafísica são as raízes, a física é o tronco e as outras ciências são os galhos. Percebia desta forma o conhecimento como uma unidade, todos os saberes estão interligados. A filosofia é também algo útil na vida cotidiana das pessoas, a árvore filosófica dá frutos que são colhidos através das ciências práticas representadas pelos galhos. O principal objetivo da filosofia não é a teorização abstrata, ela tem que ser útil para a vida, ela serve para tornar os homens senhores da natureza. A filosofia deve ser um instrumento para melhorar a vida dos homens. Basta pensar corretamente para agir corretamente.
Ele busca um ponto de partida sobre o qual possa fundar sua filosofia, busca uma verdade que não possa ser questionada como tal, um princípio que possa lhe dar uma certeza inquestionável. Assim pensando ele cria a dúvida metódica, a partir do qual ele duvida de tudo, inclusive da própria existência e de todas as percepções dos seus sentidos. Todas as minhas sensações podem estar me enganando, como me engano quando sonho e acredito que o sonho é realidade.
Até as verdades matemáticas podem nos enganar, pois podem ser ilusões criadas por um demônio, com o objetivo de me levar ao erro no agir, falar ou pensar.
E é justamente no grau máximo da dúvida que Descartes encontra a sua primeira verdade inquestionável, enquanto duvido de tudo não posso duvidar que esteja duvidando, eu sou algo que duvida, sou algo que pensa na dúvida, sou algo que existe por pensar, se penso, logo existo.
Na sequência o filósofo busca fundamentar outras verdades através da verdade da existência por pensar. Nosso pensamento é imperfeito, mas somente pode ter sido criado por um ser perfeito que é Deus. Deus sendo perfeito não pode querer nos enganar em relação às nossas sensações e se as nossas sensações também são verdadeiras, o mundo exterior existe e é conforme nós o sentimos e intuímos.
Descartes cria um método para bem conduzir nossos pensamentos. Para alcançar a verdade devemos seguir os seguintes princípios: Princípio da evidência, não admitir algo como verdadeiro se não tivermos evidências suficientes para considerar como tal. Princípio da análise, dividir os problemas em tantas partes quanto forem possíveis para que melhor possam ser resolvidos. Princípio da síntese, estabelecer uma ordem de relação entre nossos pensamentos, solucionando primeiro as questões mais simples e depois as mais complexas. E o princípio de controle, fazer constantes revisões de todo processo para ter certeza de que nada foi omitido.
São também verdades nossas ideias inatas, como as matemáticas, pois nos foram dadas por Deus. E é no método matemático que ele vai fundamentar a ciência para conhecer e modificar o mundo. O mundo é uma variação de formas, tamanhos e movimentos da matéria e essas variações podem ser quantificadas e entendidas pela matemática através também da geometria.
Descartes divide matéria de pensamento, para ele o pensamento, ou a substância pensante independe e é separada da matéria. A nossa consciência individual é separada do corpo e continua a existir mesmo sem o corpo. Nós somos um marinheiro navegando no mundo através do nosso corpo que é o navio, mas estamos ligados ao corpo de uma forma estreita, formando um todo com ele. A relação entre nossa consciência e nosso corpo se dá através da glândula pineal, que é a sede da nossa alma. Corpo a alma assim se misturam, mas não ao ponto que não seja possível distinguir uma da outra. Nesta relação podemos diferenciar algumas operações que pertencem somente ao corpo e outras que são específicas da alma. A alma busca o conhecimento da verdade, o corpo é responsável pelas sensações.
Sentenças:
- Penso, logo existo.
- O bom senso é a coisa mais bem dividida no mundo: todos pensam ter em abundância.
- Além do nosso pensamento, nada está realmente sobre nosso controle.
- Conquiste você mesmo, não o mundo.
- A dúvida é a origem da sabedoria
- Nada vem do nada.
- As melhores mentes podem ter as maiores virtudes ou os maiores vícios.
René Descartes
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Francis Bacon (1561 - 1626)
Bacon é considerado o pai do empirismo moderno por ter formulado os fundamentos dos métodos de análise e pesquisa da ciência moderna. Para ele a verdadeira ciência é a ciência das causas e seu método é conhecido como racionalista experimental. Afirma que "O empírico se assemelham à formiga, pois se preocupa em acumular e depois comer a sua comida. O dogmático é como a aranha que tece sua teia com material extraído de si mesmo, da sua própria substância. A abelha faz o melhor caminho, pois tira a matéria das flores do campo e então por uma arte própria, trabalha e digere essa matéria".
Podemos olhar a natureza de duas formas: primeiro através da antecipação, onde se dispensa o experimento e através de algumas sensações formulam-se máximas que não exigem provas para serem consideradas verdadeiras. A segunda forma é através da interpretação, que utiliza um método que ordena as experiências e sobe, de forma organizada dos experimentos específicos às verdades gerais. Cada etapa desse processo tem que ser experimentalmente comprovada. A pesquisa por antecipação não gera frutos, mas a pesquisa por interpretação é criativa e imaginativa e produz novidades abundantes e de boa qualidade.
Sua reflexão filosófica busca um método para o conhecimento da natureza que possa ser definido como científico e que possa ser repetido. Para ele esse método é o indutivo, mas não na forma entendida por Aristóteles como a enumeração simples da observação de diversos casos e da criação de uma regra geral com base nesses casos. Para Aristóteles, por exemplo, se forem observadas diversas araras e todas elas forem vermelhas, podemos chegar à conclusão por indução de que todas as araras são vermelhas. Para Bacon a coleta simples de informações como as das araras podem nos levar ao erro, pois a informação seguinte pode ser o conhecimento de uma arara azul.
A solução para prevenir essas falsas conclusões é a criação de uma metodologia que exclua os caracteres não essenciais dos fenômenos observados. A indução deve nos levar ao conhecimento da lei que rege esses fenômenos, deve descobrir a natureza, a causa e a essência do que está sendo estudado. Bacon busca a origem do fenômeno, sua constituição, estrutura e desenvolvimento. As explicações dos fenômenos estão contidas também nos aspectos qualitativos e não somente nos quantitativos. Esse método é, de forma geral, o que os biólogos usam para estudar as araras hoje, por exemplo.
Bacon critica duramente muitos filósofos anteriores a ele a quem considera estéreis por suas filosofias não se preocuparem em resolver problemas práticos da vida das pessoas. A filosofia tem o objetivo de oferecer instrumentos para melhorar a vida dos homens e fazer com que ele tenha mais poder sobre a natureza. O conhecimento é algo prático e quanto mais conhecimento tivermos mais poderosos seremos. A ciência tem que ser funcional e produzir efeitos na vida dos homens. Para ele os filósofos do passado fizeram uma filosofia de palavras e o que os homens precisam é uma filosofia de obras.
Francis se preocupa também em identificar as formas mais comuns de pensamentos que podem nos levar a falsas verdades, que ele chama de ídolos. Os ídolos da tribo são os enganos criados pelo nosso próprio intelecto que através de observações fáceis e parciais pode chegar a conclusões falsas, como aconteceu durante muito tempo nas observações que os homens fizeram do universo e acreditaram que o sol girava em torno da terra. Os ídolos da caverna dependem de cada indivíduo, pois cada um de nós tem uma caverna, um lugar profundo onde guarda verdades que independem da comprovação, são certezas das quais não abrimos mão mesmo diante de provas concretas. Os ídolos da caverna, ou os pré-juízos, podem nos levar ao erro por não aceitarmos a existência de outras verdades e de outras realidades além dessa nossa verdade íntima e profunda. A terceira forma de ídolo é a da praça, ou do foro, que podem nos levar ao erro por diferenças de interpretação do que nos falam e do que falamos aos outros. As palavras são o fio condutor que podem nos levar a esse ídolo, as palavras podem fugir da nossa interpretação e criar vida e sentido próprio e nos levar ao erro. O quarto e último ídolo é o do teatro e podem chegar até nós através de doutrinas filosóficas que não foram suficientemente demonstradas.
Sentenças:
- Obedecer a natureza é comandá-la.
- Quem não usa novos remédios vai ter novas doenças.
- É melhor não ter uma opinião sobre Deus do que ter uma má opinião sobre ele.
- A verdade é filha do tempo.
- No teatro humano Deus é o espectador.
- Pouca filosofia gera o ateísmo, muita filosofia nos leva à fé.
- O homem pode tanto quanto sabe.
- A natureza humana é mais estúpida do que sábia.
- A esperança é um bom café da manhã, mas uma péssima janta.
- O dinheiro é bom servo, mas mau patrão.
- Na caridade não existe excessos.
- É triste ter poucos desejos e muitos temores.
- A natureza algumas vezes está escondida, outras dominada, mas raramente extinta.
- As ocasiões tem que ser criadas e não esperadas.
- Suspeita muito quem sabe pouco.
- A amizade duplica as alegrias e divide as angústias.
- Velha madeira para queimar, velho vinho para beber, velhos amigos para confiar e velhos livros para ler.
- O fanático não quer o idiota não pode e o covarde não ousa pensar.
- As maiores obras nasceram de homens sem filhos.
- A vingança é uma justiça selvagem.
- O silêncio é a virtude do imbecil.
Francis Bacon
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Isaac Newton (1643 - 1727)
Newton é importante para a filosofia por fundamentar a ciência que influenciará os pensadores iluministas. Ele acreditava que a natureza age de modo a simplificar as suas ações ao máximo, as consequências naturais tem o mínimo de causas possíveis. A natureza não desperdiça nem tempo nem energia em seus movimentos, em uma atividade natural é utilizado o mínimo possível de elementos. Além dessa simplificação das ações, na natureza as mesmas consequências tendem a ter as mesmas causas ou causas parecidas. Causas semelhantes têm consequências semelhantes e isso torna a natureza homogênea. Essa homogeneidade gera uma constância nas leis físicas e químicas e é essa constância que possibilita a harmonia do nosso universo.
A partir dos princípios da simplicidade e da homogeneidade, Newton fundamenta o uso do método indutivo pela ciência. Nas leis científicas serão utilizados os raciocínios que partem do particular ou singular para o universal. É possível inferir de certas causas e consequências que todas as causas parecidas ou iguais terão as mesmas consequências.
Newton via o mundo como uma grande máquina cujo funcionamento pode ser entendido se conhecermos o funcionamento das pequenas peças que a compõe. Para ele essa máquina universal só pode ter sido criada por um Ser com capacidade de entender todo o seu funcionamento nos mínimos detalhes e com poderes superiores a todo o universo. A organização do universo demonstra o plano desse Ser inteligente e poderoso. Esse ser infinito perfeito e eterno é Deus que governa tudo como um senhor. Esse Deus não pode ser conhecido da mesma forma que um cego não pode ter noção das variadas cores e projeções de luzes.
No mundo científico de Newton busca-se a funcionalidade, busca-se saber o como a máquina universal funciona. Para ele não é a busca da essência a principal função da ciência. A causa última, o porquê final da gravitação universal não é objeto da pesquisa científica, ela já está contemplada no Ser supremo, não cabe ao cientista buscá-la porque ela não é mecânica, e não pode ser conhecida pelas regras metodológicas da pesquisa científica.
Sentenças:
- Se enxerguei mais longe é porque subi no ombro de gigantes.
- Sabemos uma gota, ignoramos um oceano.
- Calculo os movimentos celestiais, mas não a loucura das pessoas.
- Platão e Aristóteles são meus amigos, mas sou mais amigo da verdade.
- Uma grande descoberta começa com uma grande opinião.
- Foi a paciência, mais que o talento, que me levou a descobertas de valor.
- Construímos mais muros do que pontes.
- A natureza não cria nada inutilmente.
- A natureza ama a simplicidade.
Isaac Newton
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Galileu Galilei (1564 - 1642)
Galileu propõe a renovação da ciência de sua época abandonando a confiança na autoridade, no senso comum e na tradição. Busca uma ciência livre de tudo aquilo que a prende tanto a cultura como a teologia. Para ele os textos da tradição filosófica ou teológica não devem servir para responder as questões científicas. As questões científicas devem ser confirmadas ou refutadas através da experiência e da observação feitas diretamente sobre o objeto que está sendo examinado. Não podemos desprezar o conhecimento que a natureza nos oferece de forma direta em benefício de textos sagrados ou filosóficos que discordam dessa observação.
A natureza é o livro da ciência e para ler esse livro necessitamos da experiência direta sobre a natureza, é nessa experiência que encontraremos a verdade. A natureza não nos engana, nós é que podemos nos enganar se não a observarmos de forma correta e com os instrumentos necessários a essa observação. A experiência não é somente a observação da natureza a experiência para conhecer a natureza tem que ser um experimento, uma experiência construída, programada, organizada, com um objetivo próprio, que é o de confirmar ou refutar uma hipótese. A construção do experimento depende de uma teoria que vai fundamentá-lo.
Através da razão o homem poderá interpretar e transcrever em forma de conceitos o fenômeno que ele observou na natureza. A matemática é o grande auxílio da razão nesse trabalho de interpretação. Com a colaboração da matemática poderemos formular teorias científicas que explicarão os fatos demonstrados pela experiência. A matemática aplicada à experiência e à demonstração serve para tornar evidente ou refutar as hipóteses formuladas. A matemática é o instrumento de investigação da natureza.
A experiência é o limite do nosso conhecimento. A razão não tem a capacidade de conhecer a essência das coisas.
A natureza é organizada por uma única estrutura que não muda nunca, para conhecermos essa estrutura sobre a qual se fundamenta a natureza a ciência tem que construir um conjunto de elementos que possam medir essa natureza de forma precisa.
Galileu procura também separar ciência da religião. Ciência e fé não interferem uma na outra, pois ambas trabalham em planos diferentes. A fé trabalha e fala de um plano metafísico do mundo, enquanto que a ciência age sobre o mundo físico. Galileu faz a comparação de que no mundo existem dois livros com o objetivo de revelarem a mesma verdade, mas de forma diferente. O primeiro livro é a Bíblia que busca a salvação e a redenção das almas e cujos escritos científicos são simplificados e próprios para o entendimento do povo. A natureza é o segundo livro que para ser interpretado tem que ser lido de forma científica e objetiva. Os dois livros são obras de um único Autor e por isso mesmo não podem ser contraditórios.
Sentenças:
- Quanto mais meios usamos para imitar algo, mais diferente esse algo se torna da coisa imitada, e mais maravilhosa é a imitação.
- A discussão dos problemas naturais deve começar pelos experimentos e não pelas escrituras.
- Existem dois tipos de mentes: uma que inventa fábulas e outra que acredita nelas.
- Meça o que pode ser medido e faça medível o que ainda não é.
- Se Deus nos dotou de inteligência e razão, porque ele nos privaria do seu uso?
- Duas verdades não podem se contradizer mutuamente.
- As verdades são fáceis de entender, o difícil é descobri-las.
- O Espírito santo ensina como se vai a céu e não como os céus vão.
- Com o alfabeto da matemática Deus escreveu o universo.
- Qualquer um fala obscuramente, mas claramente poucos.

Galileu Galilei
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Galileu Galilei
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Tomás Campanella (1568 - 1639)
A filosofia para Campanella é interpretar a natureza, que é onde Deus colocou sua expressão. Além de nós mesmos devemos conhecer a natureza, mas conhecer a si mesmo não é uma obrigação para conhecer a natureza, pois toda natureza sabe que existe e sente em si mesma a sua existência. Esse saber-se existente é uma característica inata das coisas naturais. Além do saber inato da própria existência as coisas sabem também que existem outras coisas diferentes de si, esse conhecimento da existência de outras coisas vem do contato. As pessoas não sentem o calor ou o frio, sentem a modificação que sofrem em si mesmas causadas pelo contato com o calor ou com o frio.
Quando conhecemos algo somos também modificados por esse algo, esse algo nos transforma e deixamos de ser o que éramos. A coisa que conhecemos transfere para nós algo que não tínhamos, nós ganhamos conhecimento, mas ao mesmo tempo perdemos, pois morreu em nós algo e no local desse algo foi colocada parte da coisa que conhecemos. Todas as coisas, inclusive as materiais como as pedras, tem a capacidade de sentir, pois todas tem em si um espírito que também é material. O homem se distingue do restante das coisas materiais por ter, além da alma material, também uma alma espiritual que nos é dada por Deus.
As coisas no mundo tem basicamente três características: potência, que é a capacidade de ser e ter qualidades que ainda não é ou tem; sapiência, que é a habilidade de saber que existe e é algo; e o amor, que é o querer e gostar de ser o que é. Essas três características encontram-se mescladas umas nas outras, e o contrário delas é a impotência, a insapiência e o ódio. Todas as coisas finitas têm em si as características e o contrário delas. Em Deus não existem as características negativas, pois ele é a máxima potência, a máxima sapiência e o máximo amor.
O filósofo Campanella presta atenção especial à teologia política, ou à política ordenada e comandada pela religião católica. Ele busca unificar todas as religiões em uma só, a católica, que ele considera a verdadeira, natural e que segue a razão. Teoriza também a unificação de todos os estados em um só. Este estado único deveria ser direcionado pela religião. Acreditava que a religião católica tinha que retornar novamente o seu caminho natural e isso só se daria através de uma renovação, promovida pela filosofia.
Em seu livro A Cidade do Sol, ele exemplifica muito bem qual é sua ideia de sociedade ideal. O Estado perfeito era liderado por um príncipe sacerdote chamado de Sol. Esse príncipe tinha outros três príncipes ajudantes, Pon, Sin e Mor, que são a Potência, a Sapiência e o Amor. Em seu Estado perfeito tudo e detalhadamente organizado e os moradores desse estado utilizam a razão para organizar suas vidas. Segundo Campanella eles sabem que a propriedade privada cria o egoísmo no homem e os incentiva a lutar pela propriedade, por isso todos os bens são comuns. Todos tem que trabalhar e até os menores atos são feitos em comunidade. A Cidade do Sol é comunista e liderada pelos sacerdotes e sábios.
Campanella colocou como objetivo de sua existência destruir os governos tirânicos, os argumentos falsos e a hipocrisia. A filosofia é o que vai impulsionar a renovação da política e da religião e destruir todas as desgraças humanas. Através da filosofia o homem vai alcançar paz e justiça.
Dedica também estudos à magia, que ele divide em divina, como os milagres; magia natural como as curas feitas pela medicina ou o movimento das estrelas e por último a magia diabólica que são feitas pelo demônio e que se não conhecermos as diferenças entre as duas primeiras e a última, essa pode parecer milagre.
Sentenças:
- Quanto mais entendo mais ignoro.
- O mundo é uma gaiola de loucos.
- O mundo é o livro onde Deus escreveu suas ideias.
- A morte é doce para quem a vida é amarga.
- Quem tudo sabe tudo é, quem pouco sabe pouco é.
- Mais natural é a sociedade onde os bens são comuns a todos.
Tomás Campanella
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Giordano Bruno (1548 - 1600)
Para Bruno o universo é constituído de um único corpo, mas as coisas singulares são ordenadas com precisão e estão conectadas com todas as outras coisas. O que fundamenta essa organização são as ideias, que são princípios eternos e imutáveis. Cada coisa particular é uma imitação, uma imagem ou a sombra da realidade ideal que a orienta. Nossa mente também segue essa estruturação universal e nossas ideias não são eternas e imutáveis, mas são o reflexo, o vulto das ideias que não se alteram.
Mesmo nossas ideias sendo a sombra de algo imutável, através delas podemos chegar ao verdadeiro conhecimento se encontrarmos um método que consiga assimilar e compreender a complexidade da realidade. Esse método tem que ter a capacidade de entender essa estrutura universal ideal que sustenta todo universo.
Para Giordano o método para entender a unicidade e a multiplicidade do universo é a memória. A memória nos permite impedir que nossa mente se confunda com o grande número de coisas que existem no universo e com os conceitos e representações dessas coisas. Essas representações são sombras das ideias divinas e a memória serve para fixar em nossa mente essas imagens. Através de exercícios de memória podemos colocar em nossa mente um grande número de reflexos das coisas e das ideias divinas, o que torna mais sólida nossa capacidade intelectiva e mais eficaz nossa ação sobre o mundo. Para atingir esses objetivo é que Giordano Bruno foi grande estudioso e professor de mnemônica, que é o estudo de técnicas para facilitar a memorização.
Bruno sustenta ainda que o universo é infinito, e como infinito não tem um centro nem uma circunferência.
Em seus estudos sobre ética Bruno culpa o cristianismo de inverter os valores morais de sua época. O cristianismo tornou a crença sem reflexão em uma sabedoria, a hipocrisia humana em conselho divino, a corrupção da lei natural em piedade religiosa, o estudo em loucura, a honra em riqueza, a dignidade em elegância, a prudência na malícia, a traição na sabedoria e a justiça na tirania.
Para combater essa situação Giordano cria uma escala de valores onde em primeiro lugar está a verdade, em segundo a prudência e em terceiro a sabedoria. Em quarto lugar está a lei, que regula o comportamento das pessoas e na sequência, a força de espírito que é a virtude interior.
Deus, para o filósofo Bruno, não pode ser conhecido pelas suas consequências nem por suas obras, da mesma forma que não podemos conhecer o escultor pela estátua. Não podemos conhecer Deus porque Ele está muito além da nossa capacidade intelectiva. O caminho mais digno para nos aproximarmos de Deus é através da sua revelação.
Mas Deus como objeto de estudos da filosofia, é a própria natureza. E como natureza Deus é o motivo e a origem do universo. É motivo porque Ele é que define as coisas que formam o universo. E é origem porque é Ele quem dá a existência para as coisas do universo. Deus é o intelecto universal que anima, serve de base e governa o mundo.
Sentenças:
- Deus é tudo em tudo, mas não em cada parte.
- O tempo tudo tira e tudo dá; tudo transforma e nada destrói.
- Não existe satisfação sem tristeza.
- A poesia não nasce das regras.
- Somos a causa de nós mesmos.
- O universo é uno, infinito e imóvel.
- Os homens mais devotos e santos, um dia foram chamados de asnos.
- Não é a matéria que causa o pensamento, mas o pensamento que causa a matéria.
- O homem não tem limites, e um dia se dará conta disso e será livre, ainda neste mundo.
- O amor torna o velho louco e o jovem sábio.
- A ignorância é a mãe da felicidade.
Giordano Bruno
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Bernardino Telésio (1509 - 1588)
Telésio discorda das teorias aristotélicas e acusa o filósofo grego de ser contraditório com as suas próprias teorias e com as verdades da Sagrada Escritura. É melhor seguir a experiência da natureza do que seguir a filosofia aristotélica. Para organizar a experiência que temos da natureza Telésio divide-a em três princípios físicos, os dois primeiros princípios são o frio e o calor e ambos são princípios ativos. O terceiro princípio é a matéria e é passiva, pois sofre a ação dos dois primeiros. O frio e o calor são princípios contrários entre si e em seus movimentos eles modificam a matéria. O calor dilata e o frio agrega e junta a matéria e é esse dilatar ou agregar que determina a mudança da matéria. O calor na natureza representa o movimento, pois o que se move é quente e o frio representa a estagnação. Tanto o calor como o frio são imateriais e precisam da matéria à qual vão se ligar, é através da qualidade e da quantidade dessa ligação que vão surgir novas matérias modificando as antigas.
O frio e o calor são contrários e tentam se evitar reciprocamente. O calor representa a vida e qualquer corpo que tenha um mínimo de calor é animado.
Bernardino defende ainda em seus estudos físicos de que é possível sim existir o espaço vazio, pois o espaço é algo que tem a capacidade de conter corpos e que pode existir mesmo que os corpos não existam. Acredita ainda que o conhecimento da natureza deve fundamentar-se nos estudos dos princípios naturais e não sobre considerações metafísicas. A natureza é independente e segue regras próprias que não são as regras metafísicas.
Nosso espírito está situado no cérebro, mas se irradia por todo o corpo. O espírito é também flexível, frágil e discreto e os princípios ativos – frio e calor – interferem nele e podem transformá-lo, quando o espírito se transforma toda a pessoa se transforma, pois o espírito age sobre todo corpo. É por isso que as pessoas modificam. O espírito é sensível e percebe as mudanças através da expansão e contração da matéria causada pelo calor ou pelo frio.
O espírito também tem memória e através dela ele consegue formular princípios universais tentando através do conhecimento das partes, conhecer o todo.
A Ética de Telésio fundamenta-se na conservação física da pessoa. É ético todo julgamento que permite o homem se conservar vivo, mal tudo que vai contra essa conservação. Assim o bem é o prazer e o mal a dor. O sábio é aquele que não busca somente o prazer imediato ou foge do mal momentâneo, mas aquele que utilizando a lembrança em experiências passadas faz escolhas que levam à conservação do seu espírito. Conservar a si mesmo e ao seu espírito é o fim último para o homem e é nele que está a virtude.
Sentença:
- No homem a substância que sente é a mesma que raciocina.
Bernardino Telésio
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Tomas More (1478 - 1535)
Em sua obra Utopia - que pode ser traduzido como lugar que não existe ou lugar feliz que não existe - Tomas More descreve um imaginário reino situado em uma ilha. Nessa ilha vive uma sociedade ideal que pode ser vista como o oposto idealizado da Europa contemporânea de More ou uma sátira dessa mesma sociedade.
A obra de More se divide em duas partes, na primeira chamada de Cidade Real o autor faz uma análise crítica sobre a economia e a política da Inglaterra de sua época. Nessa análise More se posiciona contra a pena de morte para os crimes de furto, que tinham aumentado devido ao desemprego e à fome causada pelo aumento da produção de lã para as indústrias têxteis.
A causa de toda essa situação de pobreza e criminalidade é a propriedade privada e More propõe a sua abolição e a divisão dos bens materiais de forma igualitária.
Na segunda parte do livro More descreve a Cidade Perfeita existente na ilha Utopia, que se assemelha à Inglaterra. Na Utopia a propriedade privada é proibida por lei e o cultivo da terra é feito em intervalos de dois anos por qualquer cidadão. Todos tem que trabalhar no mínimo 6 horas por dia e um lugar de destaque é dado ao estudo de ciência e de filosofia.
A família monogâmica é o fundamento da sociedade utópica. As mulheres podem se casar com 18 anos e os homens com 22. O divórcio e permitido e o adultério é punido com severidade
A tolerância religiosa é outro destaque da comunidade utópica, mas todos são obrigados a crer na Divina Providência e na imortalidade da alma. Todos admitem a existência de Deus, mas cada um pode prestar culto e adorar esse Deus conforme sua preferência. Todos podem tentar convencer os outros da verdade da sua fé, mas sem o uso da violência ou do insulto. A multiplicidade de rituais e cerimônias agrada a Deus segundo More.
O filósofo nessa obra busca racionalizar a estrutura do estado em uma forma ideal. A razão é que vai fundamentar a política. Ele coloca ainda que o caminho natural do homem é a busca do prazer e é pelo prazer que o homem pode chegar à solidariedade pois percebe que assim como o prazer é um bem para ele, também é um bem para os outros que convivem em sociedade e que em uma sociedade que busca o prazer todos os indivíduos podem mutuamente se proporcionar esse bem.
Para termos uma sociedade organizada e para acabarmos com os males que atormentam essa sociedade temos que utilizar a razão e alguns elementos básicos que comandam a natureza e os homens, pois a natureza e a razão se equilibram em suas regras.
Sentenças:
- Os proprietários são como zangões que vivem do trabalho alheio.
- O homem não pode se separar de Deus nem a política da moral.
- Continuo fiel servidor do Rei, mas antes sou servidor de Deus.
- Os homens quando recebem um mal escrevem no mármore, mas um bem escrevem na poeira
Tomas More
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Maquiavel (1469 - 1527)
Nicolau Maquiavel se dedicou ao estudo da filosofia política, mas de forma diferente dos filósofos anteriores a ele, buscou investigar a política pela política, ou seja, sem utilizar em sua análise conceitos morais, éticos e religiosos que pudessem direcionar seus estudos. A política em sua filosofia tem a capacidade de se auto-governar, de buscar suas próprias decisões de forma livre, sem que outras áreas do conhecimento interfiram em suas conclusões. Com Maquiavel nasce uma nova forma de estudar filosofia política.
Em seus estudos aparecem claramente interesses históricos, pois o filósofo busca a recriação de uma nação italiana com inspiração na República Romana. Dessa forma ele busca na origem latina da Itália inspiração para seus estudos políticos. Procura em Roma um retorno aos fundamentos da comunidade italiana. Para que seja possível esse retorno aos fundamentos devemos conhecer com clareza a história dos princípios sobre os quais se fundaram essa comunidade. O estudo desses princípios deve ser feitos através do realismo e não dos conceitos morais ou religiosos. Maquiavel dessa forma funda a objetividade nos estudos históricos.
Para unir novamente a Itália na forma de uma nação republicana nos moldes romanos Maquiavel busca um príncipe que possa agrupar e dirigir os vários pequenos estados em que está fragmentada a Itália da sua época.
Esse príncipe político em seu empreendimento não pode contar somente com a boa vontade das pessoas, pois estas não são naturalmente nem boas nem más, mas podem ser tanto uma como outra. O príncipe político que desejar ter sucesso em seu empreendimento deve partir da regra de que as pessoas são más e que na primeira oportunidade elas demonstrarão essa maldade, geralmente traindo o seu superior. O príncipe não deve ter a bondade como fundamento de suas ações, mas deve saber ser bom ou mau conforme a necessidade política. Se puder, deve ser bom, mas se necessário deve usar da maldade, evitando sempre o meio termo. Deve evitar ficar em cima do muro e pender hora para um lado hora para outro, pois isso seria sua ruína.
A política, vista por Maquiavel, justifica-se por si mesma e não deve buscar fora de si uma moral que a justifique. O objetivo da política é levar os homens a viver na mesma comunidade de forma organizada e se possível em liberdade. O príncipe político busca estabilidade do cargo, busca manter-se no poder.
O príncipe tem que ser virtuoso e aqui Maquiavel não utiliza o conceito cristão de virtude, mas o conceito grego pré-socrático, onde a virtude é vitalidade, força, planejamento, esperteza e a capacidade se impor e profetizar. O príncipe que tiver essa virtude vai ser dono do próprio destino, vai criar sua própria sorte, que para ele determinava somente metade dos acontecimentos na vida das pessoas, a outra metade é definida pela liberdade.
Sentenças:
- Faça de uma vez só todo o mal, mas o bem faça aos poucos.
- Quem for eleito pelo povo deve manter-se amigo dele.
- O que depende de muitos costuma não ter sucesso.
- Quem for desarmado torna-se desprezível
- Boas leis não servem pra nada se não existirem boas armas.
- Toda guerra que é necessária é justa.
- A guerra faz o ladrão e a paz prende-os.
- É mais seguro ser temido do que amado.
- Os homens esquecem mais facilmente a morte do pai do que a perda do patrimônio.
- Governar é fazer acreditar.
- É fácil persuadir o povo de algo, difícil é manter essa persuasão.
- Nunca faltará ao príncipe razões legítimas para burlar a lei.
- Grande dificuldade pede grande disposição.
- Todos vêem aquilo que você parece, poucos percebem o que você é.
- Quem engana sempre vai encontrar alguém que se deixará enganar.
- Um governante eficaz não deve ter piedade.
- Em tempos de paz devemos pensar na guerra.
- As pessoas ofendem mais a quem amam do que a quem temem.
- A liberdade consome a si mesma, pois sua força acaba logo.
Nicolau Maquiavel
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Erasmo de Roterdã (1466 - 1536)
Erasmo posiciona-se contra a construção da filosofia com base no aristotelismo escolástico. Ele acredita que o objetivo da filosofia é conhecer-se a si mesmo, seguindo os passos de Sócrates. Conhecer-se a si mesmo é atingir a sabedoria que está ligada a uma vida religiosa cristã, para ter sabedoria as pessoas não precisam de grandes aprofundamentos filosóficos, basta a leitura e o entendimento de poucos livros que para ele são os Evangelhos e as Epístolas de Paulo apóstolo. Através do entendimento desses livros pode-se retornar à verdadeira natureza do cristianismo, pode-se renascer.
Para que esse renascimento e o retorno aconteçam é necessário rejeitar tudo que foi criado pelo poder eclesiástico, é preciso uma reforma religiosa, o cristianismo tem que voltar ás suas origens, ao entendimento das verdades simples que os evangelhos mostram. O caminho da sabedoria e da salvação é simples e passa pela esperança, pela caridade e pela fé sincera. Esses pontos dão liberdade ao espírito e essa liberdade é o verdadeiro ensinamento do evangelho. O espírito cristão não está nas roupas eclesiásticas ou em uma alimentação, mas na sensibilidade na emoção e na compreensão. O cristão pode encontrar tudo isso lendo e interpretando a Bíblia e é da leitura das Sagradas Escrituras que vai renascer o verdadeiro cristão, vai renascer a verdadeira natureza humana. A bíblia é a fonte do cristianismo e nela deve-se beber a água do renascimento.
Em seu livro Elogio da Loucura ele utiliza do sarcasmo e da sátira para demonstrar o declínio da moral religiosa da sua época. Para ele a loucura é o que movimenta a vida, é a mentira que dá sentido à existência. Nossa sociedade e nós mesmos temos por base a mentira e a ilusão e são elas que encobrem a dura realidade em que vivemos, elas tornam a vida mais atraente.
Nas ideias de Erasmo estão as bases do protestantismo de Lutero, mas sobre um ponto Erasmo discorda de Lutero, no livre arbítrio. Para Erasmo na liberdade está a força da vontade humana e através dela o homem pode buscar a salvação por seu próprio mérito.
Sentenças:
- A vida é uma comédia onde cada um usa sua máscara.
- Representamos nosso papel até que o diretor nos tire do palco.
- A fé é a principal loucura humana.
- O hábito torna aceitável o pior dos absurdos.
- Os mais perigosos males são os que não são percebidos.
- Aquilo que os olhos são para o corpo a razão é para a alma.
- Teremos tempo para tudo se o organizarmos com parcimônia.
- A guerra é bela para aqueles que não a viram.
- Algumas pessoas confundem propriedade com administração.
- O cúmulo da estupidez é aprender o que logo depois vamos esquecer.
- A filosofia é uma meditação sobre a morte.
- A mente humana entende melhor o falso do que a verdadeiro.
- A paz mais injusta é melhor que a guerra mais justa.
- É melhor prevenir do que curar.
- Saber falar bem é também saber mentir com graça.
Erasmo de Roterdã
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Michel Montaigne (1533 - 1592)
Em Montaigne o "conhece a ti mesmo" não pode nos dar uma resposta sobre a essência do homem. Quando alguém conhece a si mesmo está conhecendo a singularidade e não a totalidade do homem. Conhecer a nós mesmos não é a garantia de conhecer os outros. Para melhor nos conhecermos podemos refletir sobre a experiência dos outros e nos vermos refletidos nelas, mas isso não significa que conhecemos os outros, pois todos somos claramente diferentes.
Como cada ser humano apresenta múltiplos aspectos e cada um tem suas características próprias, não é possível estabelecer regras para todos os homens. Não podemos indicar algo que seja comum a todos, cada indivíduo tem que elaborar seu próprio conhecimento, sua sabedoria particular, que vai ser a sua medida para conhecer a si mesmo. Conhecendo a si mesmo o homem também regressa a si, o que é um dos princípios do renascimento.
Montaigne se preocupa também com a condição existencial do ser humano. A existência é um problema, uma pergunta que nunca poderá ser respondida. A nossa existência é uma experiência constante e constantemente também deve explicar a si própria. Cada pessoa traz em si a condição existencial de toda humanidade. Ele busca descrever o homem descrevendo a si mesmo. Ele e o homem são um milagre em si mesmo.
Em seus escritos ele diz utilizar a própria vida como filosofia. A sua filosofia é um relato autobiográfico, pois para ele cada indivíduo tem em si a capacidade máxima da situação humana. O homem deve buscar ser somente o que ele é, ou seja, um homem, e nada mais que isso. Não podemos fazer nada melhor do que sermos humanos. De nada adianta criarmos fantasias de que seremos algo mais elevado do que humanos que somos. Aspirarmos ser algo além de homens é inútil e pode nos causar danos morais.
Ele afirma ainda que a morte faz parte da nossa condição de humanos. Nós somos uma mescla de vida e morte e ambas confundem-se em nós. Aprender a viver é aprender a morrer. Quando assumimos nossa condição mortal tendemos a estimar mais a vida que temos. A morte nos faz desejar viver mais e melhor.
Sentenças:
- É melhor uma cabeça bem feita do que uma cabeça cheia.
- Do medo é que eu tenho mais medo.
- Quem ensinar os homens morrer vai também ensinar a viver.
- O verdadeiro espelho dos nossos discursos é nossa vida.
- A mais sutil loucura é feita da mais sutil sabedoria.
- Cada homem tem em si a condição inteira da humanidade.
- As mais belas almas são as que têm mais variedade e flexibilidade.
- Quem tem medo do sofrimento já está sofrendo.
- A palavra é metade quem fala e metade quem ouve.
- A covardia é a mãe da crueldade.
- O lucro de um é o prejuízo de outro.
- Não estamos nunca junto de nós, mas sempre para além de nós mesmos.
- Não morremos porque estamos doentes, morremos porque estamos vivos.
- O casamento é uma gaiola em que os pássaros que estão fora querem entrar e os que estão dentro querem sair.
- O melhor casamento seria entre uma mulher cega e um marido surdo.
- Quem não tem boa memória não deve mentir.
- Mesmo no mais alto trono continuaremos sentados sobre nosso traseiro.
Michel Montaigne
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Pedro Pomponazzi (1462 - 1525)
Pomponazzi sustentava que a imortalidade da alma não pode ser demonstrada racionalmente e para defender sua tese separa as verdades da fé das verdades da razão.
A alma é única e seu entendimento do mundo também, ela não pode ter dois modos de entendimento, um que depende do corpo e outro independente deste. A alma está indissoluvelmente ligada ao corpo e segue o destino desse na morte. Mas, contraditoriamente, a alma é também em certo sentido imortal, pois é nobre entre as coisas materiais e divide essas com as coisas imateriais. A alma tem um perfume de imortalidade, mas não é imortal em sentido absoluto. Somente a fé pode afirmar que a alma é imortal. A alma necessita do corpo para realizar o que lhe é próprio, pois ela não é capaz de entendimentos do mundo se não for impelida pelo mundo material, pelo corpo.
Sobre os problemas éticos decorrente da mortalidade da alma Pomponazzi afirma que para as pessoas se comportarem eticamente não é necessário crer na alma imortal e na recompensa após a morte, basta a virtude, porque a virtude é a recompensa em si mesma. A virtude nos traz recompensas terrenas e esses prêmios em vida fazem com que os indivíduos tenham um bom comportamento por causa dessas virtudes e não por esperar uma recompensa ou um castigo após sua morte. Ter um bom comportamento por causa do castigo que a alma terá após a morte é servilismo e servilismo é contrário à virtude.
Sobre uma questão de sua época: se existem causas sobrenaturais nos eventos naturais, como se uma entidade sobrenatural como o diabo causasse doenças e desastres naturais, Pomponazzi responde que devemos explicar esses fenômenos com causas naturais, sem recorrer aos demônios. É ridículo abandonarmos as coisas evidentes para buscarmos explicações em coisas que não são evidentes. Além do mais, os espíritos não podem entrar em contato com o nosso mundo. É inútil aceitar a hipótese de que existem demônios e espíritos para que possamos explicar fatos que não são habituais ou frequentes. Mas é possível que eventos surpreendentes tenham causa no movimento dos astros.
Os astros regulam e determinam a ordem natural do mundo. Regulam até mesmo a história dos homens e as instituições por eles criadas, como as religiões que tem início, meio e fim. O cristianismo não foge desse determinismo. As religiões começam frágeis, depois se tornam forte quando estão no ápice e enfraquecem quando estão se encaminhando para o fim. Um dos índices que indica o estágio em que está a religião são a quantidade e a qualidade dos milagres.
Todos os fenômenos têm causas naturais, mesmo os que parecem sobrenaturais e extraordinários, mesmo os que as pessoas consideram milagre somente porque não tem a capacidade de encontrar a causa. Se Deus criou o universo colocando nele leis físicas exatas e imutáveis, seria paradoxal que esse mesmo Deus criasse eventos sobrenaturais, como os milagres, que fossem contra essas leis.
Segundo ele, fizeram bem os antigos filósofos em colocar o homem entre as coisas eternas e a temporais, pois ele não é totalmente eterno nem puramente temporal. O homem participa das duas naturezas e está metade numa e metade noutra, assim sendo ele pode viver na natureza que desejar. Alguns homens parecem dominar o seu lado vegetativo e sensitivo e tendem a se tornar quase totalmente racionais. Outros mergulham nos sentidos e parecem animais. Outros ainda assumem o verdadeiro sentido da palavra homem e vivem segundo a virtude, sem entregar-se totalmente ao intelecto nem aos prazeres do corpo.
Sentenças:
1 - A virtude e o vício têm a sua recompensa e o seus castigos em si próprios.
2 - Nenhuma virtude ficará sem premio e nenhum vício que permanecerá impune.
3 - O castigo do vicio é o próprio vício.
Pedro Pomponazzi
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Pico Della Mirândola (1463 - 1494)
Mirândola foi um grande estudioso da Cabala, uma doutrina mística que tem por base a teologia judaica e é, segundo a crença, uma revelação de Deus para que os homens pudessem conhecê-lo de modo mais profundo e entender a bíblia de forma mais clara.
Além da cabala Pico estudou também a condição da dignidade humana. Para ele o homem é a grande criação do universo, nós somos o verdadeiro e extraordinário milagre divino. E somos o grande milagre porque todas as outras criaturas já nascem com um destino traçado, já nascem destinadas a serem o que são e não podem ser outra coisa.
Já o homem tem a capacidade e a possibilidade de fazer-se a si próprio, a sua natureza não é predeterminada. O grande milagre no homem é que ele pode inventar a si próprio, o homem pode construir a si mesmo. Não somos nem terrestres nem celestes, não somos imortais nem mortais, estamos na divisa dos dois mundos. Temos a liberdade de nos fazer conforme nossa preferência, somos criadores de nós mesmos.
Segundo nossa responsabilidade podemos nos tornar brutos e inferiores como as coisas da natureza, ou podemos também nos aproximar das coisas celestes e através da nossa inteligência atingir as coisas superiores e divinas.
Nós somos um rudimento, uma possibilidade de um novo ser, conforme nos desenvolvermos podemos nos tornar planta, animal, anjo ou podemos até mesmo participar em conjunto do Espírito de Deus.
O homem é superior a todas as outras criaturas do mundo. Como o homem foi o último a ser criado Deus o fez com a característica das diversas outras criações divinas. Por sermos livres temos a escolha de corromper-nos e baixarmos ao nível irracional dos animais ou de nos reconstruir seguindo a imagem divina. A reconstrução do homem é o seu renascimento, a sua reforma. O caminho para alcançarmos o renascimento passa pelas diversas formas de saber, mas o mais alto saber é o teológico.
Sentenças:
- A amizade é uma virtude.
- Cada um tem em si próprio dez punições: a ignorância, a tristeza, a inconstância, a avareza, a injustiça, a luxúria, inveja, traição a raiva e a malícia.
Pico Della Mirândola
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Francesco Petrarca (1304 - 1374)
Encontrar as riquezas dos ensinamentos dos autores clássicos nas diversas áreas do conhecimento humano e revitalizar esses conhecimentos continuando a pesquisas que esses autores começaram é a preocupação filosófica de Petrarca, que teve não somente a vontade, mas também a oportunidade e os meios de iniciar a revolução cultural conhecida como humanismo. Petrarca é tido como sendo o primeiro dos humanistas, movimento que está intimamente ligado ao Renascimento
Petrarca busca um mundo ideal que é diferente da sua realidade concreta. Ele discorda dos filósofos de sua época e procura nos antigos uma perfeição intelectual que ele não encontra no mundo que o rodeia. Sobre a possível oposição entre o humanismo e o cristianismo ele afirma que os filósofos antigos não tinham a fé cristã, mas tinham a virtude e na virtude o pensamento antigo e o cristão se encontram e não estão em contradição.
Segundo ele a descrença e a irreligiosidade de sua época eram causadas pelo naturalismo do pensamento árabe que tem por base Averróis e pelo uso indiscriminado da lógica e da dialética para analisar áreas do conhecimento que não lhes são próprias. Para solucionar os problemas da fé e da religião devemos direcionar nossos estudos para a nossa própria alma, devemos nos voltar a nós mesmos, esse é um dos primeiros princípios do humanismo.
O verdadeiro saber é o saber que temos de nós mesmos. De pouco adianta conhecermos a natureza das coisas e desconhecermos a natureza do homem. Petrarca considera de fundamenta importância responder questões como: Por que estamos aqui? De onde viemos e para onde vamos?
Sentenças:
- Tudo que é belo e mortal passa e não dura.
- Raramente a beleza e a virtude moram juntas.
- Os livros podem nos trazer conhecimento, ou loucura quando lemos mais do que conseguimos entender.
- A mesmice causa o desgosto e a cura é a variedade.
- Uma boa morte é a recompensa de toda uma vida.
- A razão fala, o sentimento morde.
- A razão não cabe onde entra a paixão.
- Quanto mais conheço o mundo menos gosto dele.
- Vã é a glória dos que buscam a fama só no brilho das palavras.
Francesco Petrarca
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Guilherme de Ockham (1285 - 1349)
Para Ockham a fé não pode fazer conhecer de maneira clara e inequívoca as suas verdades. A fé não pode apresentar argumentos que possam ser demonstrados. A verdade manifesta por Deus não pertence ao mundo racional. A filosofia não pode se submeter à teologia porque a teologia não é uma ciência, mas uma série de afirmações e sentenças que não se relacionam lógica e racionalmente. O que une as afirmações da teologia é a fé e não a razão.
A razão também não pode proporcionar assistência e apoio para a fé, pois para as coisas divinas a razão é ineficaz. Somente a fé consegue esclarecer assuntos da revelação divina. O entendimento da revelação divina vai além da capacidade humana e portanto não é racionalmente compreensível. A razão humana trabalha em um território diverso do território da fé.
O mundo para Ockham é a soma das diversas partes que acabam fazendo o todo, mas essas partes não tem entre si uma ligação ou uma ordenação necessária. Essas diversas partes individuais são o objeto da ciência. O universo é composto por um conjunto de elementos divididos, isolados e eventuais.
A prioridade que o autor dá ao indivíduo faz com que também tenha prioridade a experiência e é nela que ele coloca a base do conhecimento, que pode ser intuitivo ou abstrativo.
O conhecimento intuitivo é que vai demonstrar se algo existe concretamente. A compreensão intuitiva da realidade do mundo é o que origina todos os outros entendimentos que o conhecimento nos possibilita, é nele que inicia todo conhecimento experimental. No conhecimento intuitivo não existem intermediários entre o objeto conhecido e o indivíduo que vai conhecer esse objeto.
O conhecimento abstrativo é a totalização, a soma dos diversos conhecimentos intuitivos individuais e não necessita para sua formulação da existência concreta do objeto do conhecimento.
"Não devemos multiplicar os entes se não for necessário" é a frase de Ockham que resume o que mais tarde ficou conhecida como sendo A Navalha de Ockham. Como cada indivíduo é único, única também é a sua capacidade intelectual, não existe um universal para o conhecimento. Fazer abstrações sobre a essência de diversos entes é algo supérfluo e inútil. O conhecimento baseia-se no mundo empírico e individual. A Navalha de Ockham exclui do conhecimento possível o conhecimento metafísico. Somente podemos conhecer o que podemos experimentar.
Em outros termos a Navalha de Ockham diz que entre duas teorias que explicam o mesmo fenômeno devemos escolher sempre a mais simples. No caso de Ockham a explicação mais simples é a mostrada pela experiência.
Guilherme, após se desinteressar pela pesquisa dos problemas metafísicos, conduz sua atenção para os assuntos da natureza, pois essa é o objeto direto das experiências sensíveis. A natureza é o território do conhecimento humano, é para o mundo físico que os homens devem orientar sua atenção e direcionar suas pesquisas.
Guilherme de Ockham
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Roger Bacon (1214 - 1292)
A filosofia de Bacon é conhecida principalmente pelo destaque dado ao empirismo, teoria que defende que a experiência sensorial é o que produz em nós o conhecimento. Bacon usou também a matemática, que para ele era a suprema ciência, para entender a natureza.
O método de conhecimento científico deve seguir a ordem de pesquisa iniciada pela observação da natureza, depois o observador deve levantar hipóteses para entender o fenômeno da natureza e por último deve buscar comprovar suas hipóteses através da experimentação. O processo observação, hipótese e experimentação não têm fim e é aplicado em cadeia de acontecimentos que se relacionam e criam o conhecimento científico. A verdade da ciência se baseia na repetição dos fenômenos observados e para que isso possa ser feito todo o processo tem que ser detalhadamente descrito. A verdade científica vai surgir através do trabalho de muitas pessoas e vai levar o tempo que esse trabalho demorar. Os erros anteriores serão eliminados pelas pesquisas posteriores e assim a ciência alcança seu progresso.
Existem dois modos de alcançarmos o conhecimento: pela experiência e pelo argumento. O argumento nos dá conclusões e demonstrações racionais, mas são conclusões que não afastam a dúvida, pois não podem ser diretamente comprovadas. A comprovação das verdades somente pode ser feitas através da experiência, que tanto pode ser interna como externa. A experiência externa é a que conseguimos através do sensorial dos nossos sentidos, através dela alcançamos as verdades da natureza. A experiência interna depende diretamente da iluminação divina e através dela conseguimos alcançar as certezas sobrenaturais. As duas verdades levam o homem ao seu objetivo que é atingir a felicidade e a salvação.
Existem sete níveis de experiência interna: 1 - Iluminação científica; 2 - Virtude; 3 - Dons do Espírito santo; 4 - Bem-aventuranças; 5 - Sentidos espirituais; 6 - Resultados espirituais como a paz de Deus; 7 - Êxtase divino.
Em seus escritos Bacon reivindica uma reforma na teologia. Para ele a bíblia deve ser o centro das atenções dos estudos da teologia e as análises dos textos sagrados devem ser feitos preferencialmente na língua original em que foram escritos. Bacon condenou diversas interpretações dadas aos textos sagrados que para ele eram adulterações dos textos originais. O mesmo que acontecia com a bíblia acontecia com os textos dos filósofos gregos: continham diversos erros de tradução e de interpretação.
Nos escritos de Bacon aparecem estudos de matemática, ótica e alquimia. Descreve o processo para fazer a pólvora, enumera o posicionamento dos astros celestes, afirma que a terra é redonda, antecipa invenções que ainda seriam feitas como o microscópio, o telescópio, os óculos, máquina a vapor e máquinas voadoras.
Sentenças:
- A matemática é que nos dá acesso às ciências.
- A experiência é a peça principal da ciência.
- Muitos mistérios da natureza e da arte são conhecidos somente pela magia.
- A verdade é filha do tempo.
- Saber é poder.
- A verdade só se mostra a quem a procura.
Roger Bacon
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Tomás de Aquino (1221 - 1274)
Segundo Tomás de Aquino é a revelação divina que possibilita formularmos enunciados sobre a condição humana e sobre o mundo em que vivemos, é por isso que a preocupação inicial do pensamento do filósofo e teólogo é Deus e posteriormente o homem e o mundo. A filosofia por si só não consegue esgotar os conhecimentos que podemos ter do mundo e de nós mesmos. Para que possamos explorar de maneira mais abrangente a compreensão e a percepção do mundo e dos homens, necessitamos da sacra doutrina revelada por Deus. A fé aperfeiçoa a condição de entendimento da razão e a razão é o argumento aceito por todos os homens para esclarecer os assuntos da fé.
Cinco provas da existência de Deus
Tomás, seguindo argumentações lógicas, busca provar a existência de Deus através de cinco raciocínios de causa e consequência. O primeiro raciocínio é o da modificação e é o que ele considera ser o mais evidente. Os nossos sentidos nos mostram que as coisas do mundo modificam, ora qualquer coisa que modifica é porque sofreu ação de outra coisa. As coisas não podem ser causa das próprias mudanças, tudo que foi modificado foi modificado por outra coisa. Se as modificações que ocorrem no mundo foram ligadas em forma de causa e efeito, deve existir uma causa última que desencadeou todos os outros movimentos, todas as outras modificações e essa causa última de todas as modificações é Deus, pois ele é imutável, não se modifica e é único.
O segundo raciocínio é o principio causal. As coisas que existem tem necessariamente que terem sido feitas por algo que seja anterior a ela. O principio causal de uma pessoa são seus pais e da mesma forma todas as coisas tem o seu principio causal. Se raciocinarmos seguindo o principio de causa e efeito e formos buscar no passado a causa de todas as coisas, chegaremos a uma causa única que causou todas as outras coisas, essa causa única é Deus.
A existência necessária é o terceiro raciocínio. No mundo encontramos muitas coisas, ou todas as coisas, que podem ser e podem também não ser, ou ser e deixar de ser o que são. Uma pessoa é, mas pode deixar de ser. Tomás acreditava que é impossível que as coisas sejam sempre, um dia o que é deixará de ser. Mas para que as coisas existam, mesmo que temporariamente, é necessário que exista algo que exista sempre, esse algo que sempre existiu e sempre existirá é Deus.
O quarto raciocínio é o dos graus de perfeição. De todas as coisas que existem no mundo podemos classificá-las em melhores ou piores. Uma casa pode ser melhor que outra casa que pode ser pior do que uma terceira. Quando seguimos esse pensamento estamos organizando as coisas conforme seu valor, algumas coisas são mais ou menos perfeitas que outras. Na sequência, deve haver algo que seja bom, verdadeiro, virtuoso e perfeito ao máximo grau. A mais elevada perfeição, para Tomás, é Deus.
O último dos cinco raciocínios lógicos para provarmos a existência de Deus segundo Tomás é o raciocínio do finalismo. Muitas coisas que não tem em si conhecimento de sua finalidade buscam mesmo assim um fim em seus movimentos, como algumas plantas que tem por finalidade produzir frutos. Como o conhecimento da finalidade da planta - produzir frutos - não está na planta, ele deve estar em algum outro ser, e esse ser é Deus.
Tomás acreditava que o homem é formado por uma natureza racional, uma natureza que tem a capacidade de conhecer e de escolher livremente e é nessa capacidade de escolha que está a raiz do mal, que é a ausência do bem. O homem, para iluminar as suas livres ações em direção do bem, tem à sua disposição a lei eterna, a lei natural e a lei dos homens, e acima dessas três lei tem ainda a lei divina que é a lei manifesta por Deus. A lei eterna é o projeto de Deus para todo o universo. A lei natural, da qual o homem também tem capacidade de conhecimento, tem por fundamento o fazer o bem e evitar o mal, pois dessa forma ele vai proteger a sua existência, e isso também é um bem.
A lei humana nasce da necessidade que o homem tem de viver em sociedade e de evitar que vivendo socialmente alguns homens cometam o mal, que leva à destruição da sociedade em que vivem. As leis humanas tem por objetivo preservar o bem comum. Mas se as leis humanas não respeitarem as lei naturais ou forem contra as leis divinas, elas deve ser desobedecidas, pois são injustas.
Tomás busca incluir em um só conjunto a filosofia e a fé. Para representar a filosofia ele toma principalmente as obras de Aristóteles, e para representar a fé ele utiliza as revelações de Deus feita aos homens e da qual a Igreja Católica é guardiã.
A finalidade suprema do homem é Deus e a razão é dependente da fé. A essência do homem, a sua natureza, é composta pelo corpo e pela alma, o corpo também faz parte da essência do homem, pois ele é o responsável pelas sensações, que não são percebidas somente pela alma.
Sentenças:
- Somente Cristo é verdadeiro sacerdote, os outros são seus ministros.
- Você não possui a verdade, mas é a verdade que te possui.
- Os princípios inatos na razão se demonstram verdadeiros ao ponto de não ser possível pensar que eles sejam falsos.
- Eu não sou a minha alma.
- Humildade é a virtude que freia no homem o desejo de se elevar além do que merece.
- Deus é um ato puro e não em potência, ele tem em si um poder ativo infinito sobre todas as outras coisas.
- A alma se conhece pelos seus atos.
- Justiça sem misericórdia é crueldade.
- O que se recebe se recebe ao modo do recebedor.
- Tema ao homem de um livro só.
- Para quem tem fé a explicação não é necessária. Para quem não tem fé nenhuma explicação é suficiente.
Tomás de Aquino
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Boaventura de Bagnoregio (1217/1221 - 1274)
Boaventura, considerado santo e doutor pela Igreja Católica, era contemporâneo e amigo de Tomás de Aquino. Na filosofia de Boaventura a fé tem superioridade sobre a ciência. A filosofia é o caminho para se chegar a outras ciências, mas o conhecimento filosófico por si só é um conhecimento que se fecha em si mesmo, é um conhecimento que leva ao erro, a filosofia para sair desse caminho que leva ao erro, deve se abrir ao conhecimento teológico e dar abertura também para as coisas místicas. A filosofia para Boaventura tem que buscar a relação entre o finito e o infinito, ou seja, entre o homem e Deus. Além disso ele é claramente contrário a uma filosofia que não seja cristã e a uma razão que seja suficiente a si mesma.
A filosofia deve apresentar de maneira clara a presença de Deus no mundo. Uma filosofia construtiva e edificante é uma filosofia que possibilita descobrir a nossa origem divina.
Boaventura é contra a visão aristotélica de que podemos conhecer as coisas sem Deus e que Ele é um motor imóvel, pois na visão do motor imóvel não existe espaço para o amor de Deus, nem para a providência e para a criação, que são características fundamentais de Deus. Para combater essa visão aristotélica de Deus como motor imóvel, Boaventura coloca em Deus modelos de ideias, desde as mais simples até as mais complexas. Essas ideias são exemplos e através deles Deus originou de forma livre o mundo. Deus quando criou o mundo sabia e desejava que o mundo fosse como é. Deus é um artífice talentoso e engenhoso do mundo que planejou. Dessa forma de criação decorre que o mundo está cheios de vestígios das coisas divinas e cabe aos homens compreender e desvendar estes vestígios. Mas nós percebendo o mundo não percebemos de forma direta as ideias exemplares de Deus, temos somente um contato confuso com as ideias exemplares divinas.
Ele acreditava ainda que era inviável a ideia de que o mundo criado passe a ser eterno. É irreal a ideia que algo que não existia, a partir do momento que passe a existir exista eternamente. O mundo foi criado a partir do nada, o mundo era um não ser e voltará a ser um não ser. Se o mundo for infinito, ele terá que passar por grandes transformações que ocorram de forma sistemática e a sistematização implica em um mundo anterior e em um mundo posterior, mas para o infinito não pode existir um anterior e um posterior. A ideia de infinito não aceita um existir primeiro, um segundo existir ou a existência de um terceiro mundo. O mundo portanto foi criado no tempo e no seu devido tempo terá um fim.
Os seres para Boaventura são formados por matéria e forma, sendo que a forma é a essência do ser e o limite da matéria desse ser.
O homem é livre e deve ser recompensado pelo que fizer com sua liberdade. O homem para merecer as bem-aventuranças deve ser livre, pois não existe merecimento sem liberdade. A liberdade faz parte da natureza humana, mas não é um instinto, ela está ligada à vontade.
Sentenças:
- Não basta a leitura sem a devoção, a especulação sem o sentimento religioso, a pesquisa sem o maravilhar-se; a seriedade sem o entusiasmo, o trabalho sem a piedade, a ciência sem a caridade, a inteligência sem a humildade e o estudo sem a bênção divina.
- Na matéria começam todas as limitações.
Boaventura
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Alberto Magno (1193/1206 - 1280)
Foi um dos primeiros filósofos a ensinar e comentar os textos de Aristóteles. O seu trabalho filosófico foi basicamente para ampliar e desenvolver os escritos de Aristóteles e os comentários de Averróis. Ele difundiu no ocidente as filosofias gregas e árabes e seu empenho é o de através da lógica e da filosofia fazer coexistir a fé e a razão, aplicando a filosofia aristotélica ao pensamento cristão.
Alberto Magno foi professor de Tomás de Aquino e na Igreja Católica é venerado como santo e protetor dos cientistas. Foi também um grande estudioso da ciência e para ele a ciência e a fé podem andar juntas, pois não são contrárias. Em suas obras destacou a importância da experimentação e da investigação para a pesquisa científica. Destaca-se em suas pesquisas científicas a demonstração de que a terra é redonda.
A filosofia para Alberto era tanto meditação como prática. A filosofia meditativa era formada pela matemática, pela física e pela metafísica. A filosofia prática do indivíduo é a moral, da família é a doméstica e a filosofia do Estado e da sociedade é a política. Ele distingue de cinco formas o conhecimento filosófico que podemos ter de Deus e o conhecimento teológico através do qual Deus se revelou. A primeira diferença é que a filosofia utiliza somente a razão para conhecer Deus, e a teologia usa também a fé, ultrapassando a razão. A segunda diferença é que a filosofia parte de idéias iniciais que devem ser conhecidas como evidentes e a teologia parte de uma iluminação que age sobre a razão, dando a essa novas dimensões. A terceira distinção entre filosofa e teologia é que a filosofia nasce da experiência e a teologia nasce da revelação de Deus. A quarta é que a razão não pode dizer quem é Deus, mas a fé, mesmo de modo insuficiente, pode. E a quinta distinção é que a filosofia é uma ação teórica e a fé é uma ação que envolve teoria e afetividade. A teologia tem por base a revelação e a inspiração e a filosofia tem por base a razão.
Deus se revela ao homem de duas maneiras. A primeira é de forma geral e é essa revelação que recebem os filósofos. A segunda maneira é uma revelação superior que nos leva à intuição do sobrenatural. A Teologia tem por base a segunda revelação. Na primeira revelação aparecem as verdades da razão, na segunda revelação aparecem as verdades da fé.
Sentenças:
- Ache a verdade, porque a verdade liberta.
- Meu objetivo último é a ciência de Deus.
- A finalidade da ciências não é aceitar as afirmações de outros, mas investigar as causas que existem na natureza.
- Existem muitos mundos ou existe somente um mundo? Esta é a principal questão da pesquisa da natureza.
- Vou morrer com a ajuda de muitos médicos.
- A experimentação é o único caminho seguro de investigação.
- A arte por si só não pode produzir uma forma substancial.
- A teologia fundamenta-se, não na razão, mas na revelação e na inspiração.

Alberto Magno
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Alberto Magno
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Maimônides (1138 - 1204)
Moisés Maimônides foi um médico, filósofo e teólogo judeu que formulou 13 princípios da fé hebraica: 1 - Deus Existe; 2 - Deus é único; 3 - Deus é espiritual e incorpóreo; 4 - Deus é eterno; 5 - A adoração é reservada somente para Deus; 6 - Deus se revelou através de seus profetas; 7 - Moisés foi o primeiro entre os profetas; 8 - Deus entregou suas leis no Monte Sinai; 9 - A Torah é imutável como lei de Deus; 10 - Deus conhece as ações humanas antes delas acontecerem; 11 - Deus recompensa o bem e pune o mal; 12 - O Messias vai vir; 13 - Os mortos vão ressuscitar. Estes 13 princípios dogmáticos foram objeto de diversas controvérsias dentro do mundo judaico.
Em seu livro O Guia dos Perplexos ele busca harmonizar as divergências e os conflitos existentes entre a filosofia e a teologia de sua época. Para ele, se as coisas existem, e elas existem conforme nos mostram nossos sentidos, é obrigatório que exista também um Ser necessário. E isso acontece porque as coisas que existem necessitam de uma causa, e esta causa é o Ser necessário, ou Deus. Deus tem conhecimento de todas as coisas, mesmo das coisas específicas. Mas o conhecimento de Deus de todas as coisas não significa que ele tenha múltiplos conhecimentos, pois as coisas podem mudar, mas o conhecimento de Deus não. O conhecimento de Deus é único, pois são as coisas que dependem do seu conhecimento, e não o contrário.
Nós não temos como conhecer através da nossa razão como são as coisas antes de existirem e em que condições elas estavam. Explicação que utilizam esse tipo de argumento não tem validade. Através deles não podemos demonstrar nada, pois só podemos conhecer as coisas em ato e não as que ainda estão em potência. Assim sendo, Maimônides conclui que não podemos pensar na tese da eternidade, mas podemos sim pensar na tese da criação. Pensar na criação além de possível é um pensamento certo, pois as coisas e os seres já estão em ato, já existem.
O ato de criação foi um ato livre e não um ato necessário, dessa forma o mundo poderia ser diferente do que é, mas ele é assim por causa de uma escolha livre feita por Deus. Se o mundo pode ser diferente é porque ele não é absolutamente necessário, e se ele não é necessário, não é eterno.
O homem é livre tanto para conhecer o que quiser como para agir da forma que quiser, mas Deus através da sua providência conhece também o futuro das ações humanas. Essas duas coisas: o homem é livre e responsável por seus atos e Deus já tem predeterminado o futuro, parecem contraditórias, mas para Maimônides elas são conciliáveis, como essa conciliação acontece é que nós não sabemos.
Para Maimônides a alma é essencialmente única, mas tem em si cinco faculdades: A força vital; os sentidos; a imaginação; as paixões e vontades; e a razão que nos dá liberdade de compreensão. A razão é a faculdade que diferencia o homem e o faz ser o que é, as outras são compartilhadas também pelos animais.
Sentenças:
- É melhor inocentar mil culpados do que matar um só inocente.
- Seja perplexo.
- Um jogador perde sempre. Perde dinheiro, dignidade e tempo. E se vence tece em torno de si uma teia de aranha.
- A perfeição espiritual do homem consiste em se tornar um ser inteligente, que conheça sobretudo a sua capacidade de aprender.
- Nenhuma proibição da Torá é mais difícil de cumprir do que as uniões proibidas e as relações sexuais ilícitas.
- Não existe outro meio de conhecer Deus que não seja através de suas obras, são elas que indicam a sua existência.

Moisés Maimônides
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Moisés Maimônides
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Averróis (1126 - 1198)
Para Averróis, na filosofia de Aristóteles se encontra a mais alta verdade, sendo o filósofo grego um presente de Deus para auxiliar as pessoas a conhecer tudo que possa ser conhecido, em especial o conhecimento da verdade. A filosofia busca esta verdade através da razão, mas a razão filosófica para Averróis deve ser protegida e amparada pela religião, pois se tanto a filosofia como a religião buscam a verdade, não pode haver discordância entre as duas. Quando houver diferença entre as duas, o texto religioso deve ser interpretado utilizando-se dos instrumentos racionais da filosofia, porque na razão é encontrada a única verdade. As diferenças entre filosofia e teologia são somente diferenças de interpretação.
A religião dos filósofos é buscar conhecer tudo profundamente e esse é o melhor culto que eles podem manifestar a Deus: conhecer intimamente a sua obra. A filosofia deve se preocupar com investigações teóricas do fundamento das coisas e a religião deve se preocupar com as ações humanas.
Averróis divide a inteligência, o entendimento humano em duas partes, o intelecto potencial e o intelecto possível ou ativo. O intelecto potencial é a inteligência de cada ser humano, de cada indivíduo, e ele é potencial porque pode ou não se desenvolver, da mesma forma que podemos ou não ver as cores dos objetos dependendo se temos ou não luz. A luz que vai possibilitar o intelecto potencial desenvolver suas capacidades é o intelecto possível, que é uma emanação divina e nele se ligam todos ou outros intelectos.
Os conhecimentos produzidos por todas as inteligências humanas, por todos os intelectos potenciais, ficam acumulados no intelecto possível. A inteligência humana individual é uma fantasia, uma imaginação que é retirada do intelecto possível. A alma reflete em partes e de forma deturpada a inteligência suprema do intelecto possível. O intelecto ativo ou possível é como o sol que através dos seus raios ilumina o intelecto humano potencial e o possibilita ver todas as coisas em suas exuberantes cores.
Dessa forma, o conhecimento, a ciência, é eterna e não pode perder os seus componentes essenciais. A ciência é como o sol que ilumina todos os outros conhecimentos humanos. Os indivíduos com suas criações, conhecimentos e filosofias podem morrer, mas a ciência em si não morre, porque é universal e está conectada com todos os humanos.
Averróis nega a imortalidade da alma. Acredita ainda que o conhecimento da ciência é o único caminho para atingirmos a felicidade, o êxtase espiritual e religioso. A vida de todos os homens tem fim com a morte. E a alma humana nasce e morre com o corpo.
Sentenças:
- Quem conhecer melhor a anatomia e fisiologia humana, vai aumentar sua fé em Deus.
- Todas as religiões são criação humana equivalentes e por conveniência pessoal e pelas circunstâncias escolhemos uma.
- A mulher é um homem imperfeito.
- Na natureza nada é supérfluo.
- Quem fala sobre o que não é da sua conta, escuta o que não gosta.
- Conhecimento, estupidez, riqueza e pobreza não podem ser escondidas por muito tempo.
Averróis
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Avicena (980 - 1037)
Na metafísica de Avicena, Deus é um ser necessário. Ele faz uma distinção clara entre a existência e a essência das coisas, argumentando que a forma e a matéria não podem interagir sozinhas e por conta própria gerar o movimento, que é o que ele chama de fluxo vital do universo, nem gerar a própria existência. A existência tem origem em uma causa que necessariamente coloca em relação a essência e a existência, somente dessa forma a causa das coisas que existem podem coexistir com os efeitos.
Ele resolveu o problema da essência e dos atributos do mundo através de uma análise ontológica da modalidade do ser que ele subdivide em três tipos: impossibilidade, contingência e necessidade. O ser impossível é aquele que não existe. O ser contingente é o que tem necessidade de uma causa externa a si para existir. Já o ser necessário, que é único, reflete a sua essência e tem a capacidade de gerar a primeira inteligência. Dessa primeira inteligência deriva uma segunda, e depois uma terceira, dando sequência a todas as inteligências. O ser necessário é a causa somente da primeira inteligência e as outras são resultados indiretos desta. Esse ser necessário é Deus que conhece todas as coisas particulares e universais graças à sua ciência e à sua sabedoria. Tanto Deus como o universo são eternos e não existe nem tempo nem espaço antes de Deus.
Essa definição modifica profundamente a compreensão sobre a criação do mundo. Ela não é mais o capricho de uma vontade divina, mas o resultado do pensamento divino que pensa ele mesmo. A criação torna-se uma necessidade e não mais uma vontade. O mundo se origina de Deus como excesso de sua inteligência.
Sobre as causas do mal no mundo, Avicena afirmou que ele é disseminado por acidente e que ele surge por causa da imperfeição da natureza. Além disso o filósofo acreditava que o bem deve deixar espaço também ao seu contrário.
O propósito da filosofia é de esclarecer e demonstrar através da razão as verdades reveladas por Deus. Aos filósofos cabe fazer considerações e elucidações sobre as partes obscuras e ocultas das doutrinas divinas reveladas.
Nos estudos de Avicena podemos encontrar também elementos da filosofia da ciência. Ele descreve um método de investigação científica e se pergunta como é possível alcançar hipóteses, afirmações que não necessitam de prova para que sejam consideradas verdadeiras ou deduções iniciais sem que elas sejam inferidas das premissas. Para ele a solução é a combinação do antigo método indutivo aristotélico com um método que utiliza a experimentação e a observação atenta do que se quer conhecer.
O homem, animal munido de razão, tem o poder de conhecer, através da alma racional, as formas inteligíveis. Essas formas inteligíveis constroem a alma racional de três formas: primeiro através de uma emanação, de um prolongamento da substância e natureza divina, através da qual o homem pode conhecer os primeiros princípios; segundo através do raciocínio e da demonstração é possível conhecer as coisas inteligíveis do mundo utilizando para isso a lógica; e terceiro através dos sentidos.
Sentenças:
- Um médico ignorante é um auxiliar da morte.
- O vinho é um amigo de quem é moderado e inimigo de quem é beberrão.
- A medicina deve conhecer as causas de doença e de saúde.
- A oração é inteiramente espiritual, é um encontro direto entre Deus e a alma, afastado de todas as limitações materiais.
- Tudo o que não existe e depois passa a existir, é criado por algo diferente de si mesmo.
- A qualidade da vida é mais importante que a sua duração.
- A medicina não é uma ciência difícil e complexa como a matemática e a metafísica.
Avicena
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Pedro Abelardo (1079 - 1142)
A frase "a dúvida nos leva à pesquisa e através dessa conhecemos a verdade" é um dos princípios de Abelardo que direciona tanto seus pensamentos filosóficos como teológicos. O filósofo parte dessa ideia inicial para formar e fundamentar o seu raciocínio crítico. A dúvida é onde começa o caminho para a pesquisa, é uma frequente interrogação que nos leva a um exame mais aprofundado das questões que nos interessam. Através da dúvida o filósofo Abelardo emprega um caráter científico às suas investigações.
A dialética é para Abelardo muito mais do que um discurso feito de forma habilidosa, ela é o instrumento que ajuda a distinguir com clareza o verdadeiro do falso. Seguindo regras lógicas ela vai conseguir determinar se o discurso científico é verdadeiro ou é falso. Abelardo pretende utilizar o vigor da dialética nos estudos e nas argumentações teológicas para descobrir quais são os argumentos legítimos e quais são os argumentos não autênticos e através dela fazer prevalecer as verdadeiras doutrinas cristãs. Não é a razão que vai assimilar a fé, mas a fé que vai apropriar-se da razão, pois o discurso filosófico não vai tornar sem efeito o conjunto de sentenças da teologia, mas vai auxiliar no seu entendimento e torná-lo mais fácil de compreender. A filosofia vai ser a mediadora entre as verdades reveladas e o pensamento humano. Segundo a filosofia de Abelardo, não é possível crer nas coisas que não se compreende.
O método lógico de análise utilizado por Abelardo consistia em estudar a questão filosófica fazendo um exame das partes que a constituem, percebendo assim os diversos pontos de vista incoerentes e contrários. É necessário a realização de uma investigação completa que vai determinar as diferenças entre as argumentações de um tema. A razão vai prevalecer sobre a opinião de quem tem grande entendimento sobre determinado assunto. Abelardo não vai contra a utilidade do pensamento de uma autoridade enquanto não houver meios ou conhecimentos suficientes para se colocar em prática a razão. A partir do momento que a razão encontrar condições de por si mesmo encontrar a verdade, a autoridade passa a ser inútil.
Abelardo busca fazer uma conciliação, um entendimento, um acordo ou ao menos um diálogo ente os primeiros filósofos, em especial Platão, e as teorias teológicas do cristianismo. Pedro Abelardo acreditava que os primeiros filósofos, mesmo estando fora do cristianismo, buscavam também a verdade através da investigação lógica. Os primeiros filósofos e os filósofos cristãos estão unidos pela razão.
A essência de Deus é impossível de ser definida, pois ela não pode ser expressa. E não pode ser expressa porque para isso Deus teria que ser uma substância, e Deus está fora de todas as coisas que conhecemos e que possamos vir a conhecer. Para tentar explicar a trindade da pessoa divina Abelardo usa como metáfora a gramática que diferencia quem fala, para quem se fala e o que se fala. Na unidade divina as três pessoas podem ser uma só, pois é possível falar de si a si mesmo. A primeira pessoa é também o fundamento das outras duas, pois se não existir quem fala não existirá também o que se fala e a quem se fala.
Sobre as questões éticas Abelardo afirma que o pecado não é em si a ação física, mas o elemento psicológico dessa ação, ou seja, o pecado é a intenção de pecar e não a ação.
Sentenças:
- A chave para encontrarmos a sabedoria é a interrogação permanente e regular.
- Escrever é um mal perigoso e contagioso.
- Não podemos acreditar em nada se antes não o entendermos.
- É ridículo pregar aos outros aquilo que nem nós nem os outros entendemos.
- Deus faz aquilo que quer, mas como só quer aquilo que é bom, Deus só faz o bem.
Abelardo e Heloísa
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Anselmo de Aosta (1033 - 1109)
O pensamento filosófico de Anselmo é todo direcionado para as especulações em torno dos conceitos de Deus e os temas a ele ligado. O tema Deus é a base de todas as suas investigações. O filósofo distingue a existência de Deus e a natureza de Deus, pois no primeiro caso a investigação filosófica é em torno de se algo existe e no segundo caso, a investigação direciona-se para saber o que é esse algo sobre o qual se investigou a existência.
Anselmo, seguindo essa linha de raciocínio, demonstra a existência de Deus a priori e a posteriori.
Através do argumento ontológico o filósofo busca provar a existência de Deus de forma apriorística. Não podemos pensar nada maior que Deus. Mesmo os ateus quando tentam provar a não existência de Deus não conseguem pensar em nada maior que Deus. Não conseguimos falar de nada que seja maior que Deus quando pensamos em Deus, isso significa que o conceito de Deus como o algo maior que existe já está em nosso intelecto, se assim não fosse nós não conseguiríamos pensar em sua existência. Se Deus é o maior ser em que podemos pensar ele está também na realidade e não somente em nosso pensamento, pois se ele estivesse somente em nosso pensamento ele não seria o maior.
Anselmo acreditava que as pessoas já nascem com um forte senso de Deus, mas, além disso, ele formula quatro provas que podem ser experimentadas pelas pessoas, são as suas quatro provas a posteriori: A primeira afirma que as pessoas sempre buscam as coisas que lhes sejam boas e assim são diversas as coisas boas, provavelmente existem tantas coisas boas no universo quanto são os indivíduos. Mas para que exista essa diversidade de coisas boas deve também existir algo que seja a bondade total, esse algo é Deus. A segunda prova é qualitativa, Anselmo percebeu que existem diversos graus de intensidade na qualidade das coisas, para que existam esses diversos graus é necessário que exista um ser onde estejam contidas todas as qualidades, esse ser é Deus. Na terceira prova o filósofo utiliza a teleologia, o estudo das causas finais das coisas, ele se pergunta qual é a finalidade da existência das coisas do mundo e de nós mesmos. Para ele tudo existe com um objetivo, nada vem do nada e vai para o nada, pois o nada não pode dar existência a nada. Portanto, ou acreditamos que existe algo pelo qual as coisas existem ou as coisas não existem, mas como as coisas existem existe também a finalidade para que essas coisas existam, essa finalidade é Deus. A última prova empírica baseia-se na perfeição, a perfeição das perfeições do mundo é o ser mais perfeito possível, esse ser é Deus.
Na filosofia de Anselmo aparecem fortes traços de suas especulações teológicas, seguindo em alguns casos os caminhos traçados por Platão e Agostinho de Hipona busca a convergência entre a fé e a razão. Para ele a razão é um recurso essencial que pode ser usado para se chegar a conclusões teológicas. Mas a fé antecede a razão.
A busca pela verdade tem como fundamento a fé, mas somente a fé não é o bastante para confirmar a verdade, ela exige também demonstrações e confirmações racionais, confirmações estas que são encontradas através da razão. A razão, guiada por Deus, ilumina o caminho da busca da verdade. Se nosso intelecto não for iluminado por Deus ele não consegue penetrar nos mistérios divinos. Anselmo não busca através da razão afastar os mistérios dos dogmas, nem busca dessacralizá-los ou compreendê-los em profundidade, mas somente entender esses mistérios na medida que nos é possível enquanto homens.
A verdade é um raciocínio correto e íntegro e podemos obtê-la nos aproximando dos conhecimentos divinos, através deles poderemos saber como as coisas são realmente, verdadeiramente. A justiça é a vontade humana sendo dirigida pela vontade divina e que foi revelada ao mundo por Cristo e pode ser dada aos seres humanos através do Espírito Santo.
Anselmo distingue dois tipos de linguagem, a interior, que é a linguagem que utilizamos em nossos pensamentos e a exterior que são os símbolos e signos que utilizamos para nos comunicar com os outros. A linguagem exterior busca sua referência na linguagem interior.
A existência da liberdade exige dois pré-requisitos, o primeiro é a liberdade da vontade, o indivíduo não pode sofrer ameaça ou imposição externa. O segundo pré-requisito é a ausência de uma necessidade interna, pois se o indivíduo necessita de algo internamente ele não é livre em suas escolhas. Os animais não são livres, pois dependem dos instintos que são necessidades internas. Poder ou não pecar não diminui ou aumenta a nossa liberdade.
O verdadeiro mal é a injustiça, pois ela é sempre algo negativo, ela é a negação do bem que deveria existir, da justiça que deveria ser. O mal não existe como uma realidade em si, ele é puramente negação, e como pura negação podemos dizer que ele não existe, que ele é o nada.
Sentenças:
- Não busco compreender para crer, mas crer para compreender.
- Deus é o ser do qual nada maior pode ser pensado.
- A liberdade é o poder de fazer o bem.
- Todas as coisas boas são boas por causa de um único bem, todas as verdades por uma única verdade, Deus.
Anselmo de Aosta
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
João Escoto Erigena (810 - 876)
Para João Escoto a realidade é um sistema racional e unitário onde Deus e o mundo não são realidades diferentes. Todas as coisas são emanações de Deus e a ele voltam. A razão e a fé são fontes válidas para se chegar ao conhecimento verdadeiro e, portanto não podem ser opostas, mas se assim fosse, a razão é que deve prevalecer sobre a fé. É da natureza humana estar nas trevas, mas ela pode ser iluminada e conduzida pela razão.
Erigena considera que todas as aspirações humanas ao saber tem por origem a questão da fé na revelação. Nele filosofia e teologia se identificam. A verdadeira filosofia é a verdadeira religião e a verdadeira religião é a verdadeira filosofia. Filosofar é ver e reconhecer a justificação e a legitimidade dos princípios sobre os quais se baseia a religião e é por isso que a filosofia se identifica com os princípios religiosos. É inerente a ligação entre fé e razão, pois ambas tem por fundamento a mesma causa que é a sabedoria divina que está revelada na sagrada escritura. Se a fé não encontrar sustentação na razão ela pode hesitar em suas verdades. A fé é a busca para melhor interpretar os verdadeiros significados das escrituras e para melhor interpretar esses significados temos que utilizar nossa estrutura racional. A religião tem que se identificar com a investigação proporcionada pela razão.
Escoto acreditava que Deus era a única e verdadeira realidade e Deus é, portanto o principal personagem da sua filosofia. Todas as coisas dependem e são criadas por Deus e todas as coisas vão a ele retornar. A natureza é divina, pois ela se identifica com Deus. O filósofo divide essa natureza divina em quatro: 1 - A natureza incriada e criante que é o próprio Deus que é a razão de tudo que é e de tudo que não é ; 2 - A natureza criada e criante que é o Verbo divino; 3 - A natureza criada e não criante que é toda a realidade material que existe no espaço e no tempo; 4 - A natureza não criada e não criante que é Deus enquanto meta para se alcançar no fim do mundo, pois para ele vai retornar toda a natureza. Desta forma as quatro naturezas formam o que o filósofo define como sendo um circulo divino no qual o próprio Deus é o centro e se manifesta de forma incessante e eterna não saindo nunca de Si. Deus cria tudo de Si, em Si e para Si. A natureza não é somente tudo aquilo que é, mas é também tudo aquilo que não é. O que não é não é o nada, mas tudo aquilo que poderia ter sido mas que não foi e de tudo aquilo que poderá ser mas não será.
O mundo é o próprio Deus, mas Deus não é o mundo, pois ele criou e transformou-se no mundo mas se conservou em posição mais elevada do que o mundo.
O filósofo sustenta também a liberdade humana, para ele não é possível atribuir a Deus uma predestinação dos seres humanos, pois em Deus não existe uma pré ou uma pós destinação. Deus é o princípio, o meio e o fim, ele é a razão de tudo que dele se origina, ou seja, é a razão de tudo.
O mal não é em si uma realidade, mas uma recusa da realidade e Deus não conhece o mal. Se Deus conhecesse o mal o mal seria algo real no mundo. Mas o mal não é algo real, é uma recusa da realidade, o mal é o pecado que é uma carência ou uma inexistência de vontade. A vontade livre é o livre arbítrio em que o homem se encontra e nele o homem pode se decidir pelo bem ou pelo mal. O homem comete pecado quando desvia a sua vontade de escolher o mal em lugar de escolher o bem. O homem é portanto livre para pecar ou não pecar.
Sentenças:
- Não há salvação para as almas dos fiéis se não em crer no que se diz com verdade sobre o único princípio das coisas, e em entender o que com verdade se crê.
- O homem tem em si todas as criaturas.
- O Homem compreende como o anjo, raciocina como homem, sente como animal irracional, vive como o verme.
- Se eu compreendo o que tu compreendes, converto-me no teu próprio entendimento e de certa maneira, converto-me em ti próprio.
João Escoto Erigena
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Boécio (480 - 525)
Boécio acreditava que a cultura latina do seu tempo estava em crise e buscou na preservação e difusão da cultura grega a solução para essa fase difícil que passava o conhecimento romano. Para fazer com que os latinos conhecessem a cultura grega Boécio planejou traduzir para o latim as obras de Aristóteles e Platão, mas conseguiu traduzir somente alguns livros.
Para o filósofo, os seres universais como O Belo, O homem, O Universo, existem somente enquanto ideias em nosso intelecto. Eles são portanto imateriais pois são abstrações que nós criamos para entender a realidade. No mundo material o belo existe somente como atributo de coisas singulares e é através dessas coisas singulares que podemos abstrair, formar uma ideia do Belo universal.
Sendo a filosofia o amor à sabedoria e causa suficiente de si mesma, ela é também a busca pelo conhecimento de Deus, pois ele é a sabedoria absoluta. E é nessa sabedoria absoluta que devemos buscar a felicidade e não nas coisas terrenas. Deus é a felicidade e o máximo bem. O Uno, Deus e o Bem são para Boécio a mesma coisa.
Para responder a pergunta da origem do mal, já que o mundo é dirigido por Deus, Boécio utiliza a providência divina e diz que está fora do nosso entendimento percebermos todos os desígnios de Deus. Todas as coisas são feitas para atingir o bem, e não o mal. O mal é um erro de análise feito por pessoas de pouco conhecimento. Elas buscam o bem, mas por um cálculo falho, por um exame imperfeito causado pela falta de conhecimento, elas fazem o mal.
Outra questão que preocupou o filósofo foi a do destino e da liberdade. Se Deus tem um destino para os seres humanos esse destino destrói a liberdade de sermos quem quisermos ser e fazermos o que quisermos fazer. Para Boécio Deus realmente sabe tudo o que vai acontecer, mas não existe a necessidade de que tudo o que ele sabe que possa acontecer aconteça realmente. Para Deus não existe passado ou futuro, mas um constante presente e um conhecimento completo de tudo que aconteceu ou pode acontecer.
Sobre a música Boécio distingue três gêneros: a música cósmica, que os homens não percebem, pois é uma música gerada pelos astros do universo; a música humana, que é a mescla do movimento de nossa alma e do nosso corpo e que só poderemos ouvir através de um exame profundo do nosso interior; e por último a música prática que é a música criada pela vibração dos instrumentos musicais e pela voz.
Sentenças:
- A música é parte de nós e enobrece ou degrada o nosso comportamento.
- O homem é um animal bípede e racional.
- O homem é um mundo em miniatura.
- Se Deus existe de onde vem o mal? E se não existe de onde vem o bem?
- De todos os infortúnios da fortuna, de ter sido feliz é a mais infeliz tipo de desventura.
- Quem pode julgar os amantes? O amor é uma lei para si mesmo.
- Nada é mais fugaz do que a forma exterior, sua aparência muda como as flores do campo.
- Quem caiu foi porque não soube se sustentar em seus passos.
- O homem justo paga a culpa do injusto.
Boécio
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Agostinho de Hipona (354 - 430)
Agostinho cria e tenta resolver problemas filosóficos pensando em si e nos seus dilemas e inquietudes morais e intelectuais. O que ele expôs como filosofia e teologia foram geralmente respostas para questionamentos seus. As suas investigações têm como centro a próprias características morais e intelectuais.
O objetivo de Agostinho é conhecer a alma, ou seja, a sua própria interioridade e para isso ele tem que passar pelo conhecimento de Deus. Ele busca desvendar os mistérios da fé e esta é o fim das suas inquisições, mas a fé é também uma exigência e guia para que as investigações sejam feitas.
A fé é um antecedente necessário da filosofia de Agostinho e para ele a fé é a percepção de ter sido tocado de alguma forma por Deus. Essa percepção além de mudar a forma de pensar muda também a forma de viver. A filosofia é um meio para melhor pensar, para melhor compreender a fé. Mas a fé não se coloca no lugar da inteligência, a fé incentiva a inteligência, o pensamento é também condição para que exista a fé. O conhecimento também não elimina a fé, esta se torna mais forte através da inteligência. A fé procura e a inteligência localiza e descobre.
Agostinho busca conhecer Deus e a alma, mas para ele essa busca é uma só, pois Deus se faz conhecer no interior da alma. Para conhecer Deus devemos conhecer a nossa alma. É em nossa interioridade que devemos tentar encontrar Deus. Se não buscarmos a nós mesmos, ao mais profundo de nós mesmos, não encontraremos Deus e não vamos conhecê-lo.
Além de Deus ser amor, Deus é a condição para que exista o amor. Para que possamos conhecer o amor de Deus temos que estar amando as outras pessoas. A esse amor aos homens Agostinho chama de amor fraterno ou caridade cristã. Amar a Deus é algo natural e intrínseco à natureza humana, pois somos imagens de Deus nosso criador que é a verdade eterna e a verdadeira eternidade.
Deus é o criador de tudo que existe no tempo, mas ele é criador também do tempo. O tempo começou com a criação, antes dela não existia tempo e Deus está fora do tempo, pois é eterno. Em Deus não existe passado ou futuro, ele é imutável e um ser imutável como Deus vive um eterno presente.
Para Agostinho o tempo do homem é medido pela alma e para nós existe um passado e um futuro porque somos seres mutáveis e não podemos viver em um eterno presente. O passado é uma memória guardada na alma e o futuro é a alma que espera os acontecimentos. O presente é um constante deixar de ser tanto do futuro como do passado, é uma intuição. Existem, portanto três tempos presentes, o presente do passado, o presente do presente e o presente do futuro. Esses três tempos encontram-se em nossa alma.
O mal em Agostinho é o amor por si mesmo e o bem é o amor por Deus. Os homens que vivem para amar Deus formam a Cidade de Deus e os homens que vivem para amar a si mesmo formam a Cidade dos Homens. Na cidade de Deus vive-se segundo as regras do espírito e na cidade dos homens vive-se segundo as regras da carne. As duas cidades vivem mescladas uma com a outra desde que iniciou a história da humanidade e assim ficarão até o fim dos tempos. Cada ser humano tem que se questionar para saber a qual das duas ele faz parte.
Deus não criou o mal. Agostinho acreditava que um ser em que só pode residir o bem não pode ser o criador do mal. Tudo que existe é bom e o mal é a ausência desse bem, é a ausência de Deus. Deus nos concedeu o Livre-arbítrio, que é a nossa capacidade de decidir conforme nosso entendimento, e é dele que vem o mal. Deus nos criou independentes para que pudéssemos decidir por nossa vontade e através de nossa liberdade escolher o bem e não o mal. Quando o homem escolhe o mal ele se afasta de Deus.
Sentenças:
- Ame e faça o que quiser.
- Se não existir caridade não existe justiça.
- A suspeita é o veneno da amizade.
- Quem se casa está bem, quem não se casa está melhor.
- O mundo é um livro e quem não viaja lê somente uma página.
- Quem canta reza duas vezes.
- Com caridade o pobre é rico, sem caridade o rico é pobre.
- Errar é humano, continuar no erro é diabólico.
- A ignorância é a mãe da admiração.
- A medida do amor é amar sem medida.
- Os ociosos caminham lentamente e por isso os vícios os alcançam.
- Dai-me a castidade, mas não agora.
- No interior de todo homem existe Deus.
Agostinho de Hipona
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Gregório de Nissa (331 - 394)
Gregório de Nissa foi o primeiro sintetizador dos dogmas cristãos.
Ele diferenciava fé e conhecimento e o conhecimento tem perante a fé uma posição secundária. A fé tem por fundamento a manifestação pela qual Deus se fez conhecer e essa manifestação não precisa ter por fundamento a lógica para sua comprovação. Essa fé é o parâmetro de comparação para estabelecermos as medidas da verdade e do saber. Cabe à ciência tornar disponível para a fé o conhecimento que irá facilitar o entendimento da própria fé. Entre esses conhecimentos que a ciência deve disponibilizar está o de tornar evidente a existência de Deus.
Nos estudos teológicos o filósofo preocupou-se em assentar o fato de Deus ser único, pois nesse fato baseia-se a perfeição de Deus também enquanto trindade - Pai, Filho e Espírito Santo. Em sua explicação para a unicidade e a trindade divina Gregório diz que pelo nome falamos sim de três pessoas e falamos de três divindades, mas se o nome de Deus significar essência então existe a unicidade de Deus, porque em essência os três nomes são um só, pois tem a mesma natureza e a mesma substância.
Gregório explica que Deus, uma substância única, imaterial e permanente, criou o mundo formado por diversos elementos materiais inconstantes da mesma forma que o corpo é formado pelo resultado da soma de todas as suas partes. O corpo tem elementos como grandeza, cor, qualidade, quantidade e figura, mas esses elementos por si só não formam um corpo. Deus é o responsável por juntar todos esses elementos em uma única coisa, o corpo. Dessa forma Deus criou o mundo através de uma atitude, de uma ação de amor, pois o mundo não poderia ficar sem um propósito que lhe fosse peculiar. O mundo dessa forma participa também do bem que vem de Deus. É a imagem de Deus.
Mas o homem foi criado livre e o que lhe confere a liberdade é a razão, pois através da razão é que os seres humanos vão poder diferenciar o bem do mal e fazer as suas escolhas. Se não existisse liberdade não existiria também pecado e a virtude, pois para que ambos existam é necessário que exista a capacidade e a liberdade de fazer as escolhas certas.
Mesmo o homem sendo pecador, ele vai voltar a viver um dia no seio de Deus. Como todas as coisas vieram de Deus, um dia também elas voltarão a Deus. O homem um dia vai voltar às suas origens, ou seja, vai voltar a Deus. Mesmo os pecadores e maus, após padecerem sacrifícios para expiar seus pecados, retornarão a Deus. A essa teoria Gregório chama de apocatástase, segundo ela as purgações e sofrimentos no inferno não podem ser eternos e o objetivo é tão somente a expiação dos pecados. Quando os tempos tiverem fim Deus vai restabelecer e tirar do pecado todos os homens e esse vai ser o término da história da salvação.
Gregório acredita ainda que o homem é um microcosmo do universo, nele encontramos correspondência entre o corpo humano e o universo. Mas o homem não é a imagem do universo, mas a representação de deus e como tal está situado acima de todas as outras criaturas do mundo.
E é justamente por sermos representações à semelhança de Deus que poderemos conhecê-lo praticando a virtude. Se formos virtuosos estaremos imediatamente no céu, pois ele não é um lugar físico, mas espiritual.

Gregório de Nissa
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Gregório de Nissa
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Orígenes de Alexandria (185 - 254)
Orígenes é um dos maiores teólogos e escritores do começo do cristianismo. Com ele iniciou-se o posterior constante diálogo entre a filosofia e a fé cristã e uma tentativa de fusão das duas.
Ele aceitava com verdadeiros somente os quatro evangelhos e sustentava a necessidade do batismo, pois esse coincidia com a pratica e as regras da igreja que foi fundada sobre a tradição apostólica. Pregava que temos somente duas luzes para nos guiar, Cristo e a Igreja e essa última reflete fielmente os ensinamentos recebidos de Cristo como a lua reflete os raios do sol. O que distingue o cristão é pertencer à igreja e fora dela não existe salvação, quem vive à sua margem vive na escuridão.
Orígenes defendia que os escritores da Sagrada Escritura foram inspirados por Deus e por isso elas são obra de Deus, mas o autor inspirado conserva enquanto escreve, as suas faculdades mentais, ele sabe o que está escrevendo e tem a liberdade de escrever ou não. Se as Sagradas Escrituras tem origem em Deus, elas também têm que ter as suas características como a verdade, não podendo, portanto serem falsas. Existem para ele três formas de interpretarmos as Sagradas Escrituras: 1° literalmente, 2° Moralmente e 3° Espiritualmente. A interpretação espiritual é a mais importante e a mais difícil de ser feita. A forma como lemos as Escrituras Sagradas indica também o nosso estágio de amadurecimento espiritual e nossa capacidade intelectual.
As teorias de Orígenes convergem para a Trindade Divina e essa se diferencia de todas as outras criaturas por ser plenamente imaterial, onisciente e essencialmente santa. Os pecados somente podem ser perdoados através da ação concomitante do Pai, do Filho e do Espírito Santo. As três pessoas da Trindade são indivisíveis em presença e obra. Orígenes reafirma a virgindade de Maria, que foi casada com José, mas não se uniu carnalmente com ele. Coloca também em Pedro a fundação da Igreja.
Mas por mais que tentemos interpretar Deus, não poderemos nunca conhecer a sua natureza, pois ele é incompreensível para nós e impenetrável para nossa inteligência. Podemos somente compreender algumas coisas de Deus, mas ele é muito superior a esse nosso entendimento. Deus além de inteligência é a origem e causa de toda inteligência.
O filósofo defendia que a matéria existe em função do espírito e que se o espírito não tivesse necessidade da matéria ela não existiria, pois ela não tem o fim em si mesma.
Para Orígenes o fim vai ser igual ao começo, todas as coisas vão voltar a ser como foram criadas por Deus, vão ser refeitas como eram em seu estado original. O fim vai ser semelhante ao começo. Como teremos somente um fim assim tivemos também somente um começo.
Sobre o direito Orígenes formula a teoria das duas leis, as leis dos homens e as leis divinas. As leis dos homens são as formuladas pelos legisladores dos diversos estados e as leis divinas nos vem diretamente de Deus através das escrituras. Para ele se as leis dos homens não forem contra as leis divinas os cristãos devem seguir as leis dos homens, mas se os legisladores formularem leis que forem contra as leis divinas os cristãos não são obrigados a seguir essas leis e deve obedecer somente a lei divina, mesmo que isso implique a sua morte.
Sentença:
- O nosso começo foi como será nosso fim.
Orígenes de Alexandria
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
Fílon de Alexandria (10 a.C - 50 d.C)
Fílon foi um dos mais renomados filósofos do judaísmo helênico, interpretou a bíblia utilizando elementos da filosofia de Platão, para ele o Demiurgo de Platão é o Deus criador dos hebreus. Estuda os textos bíblicos exegeticamente e vê neles muito mais do que os significados textuais. Busca nas palavras a autenticidade da mensagem divina. Através dessa interpretação ele vê na Bíblia a doutrina da existência de Deus. As palavras são somente um instrumento para se tentar conhecer Deus que por princípio não pode ser expresso por palavras.
Através da exegese Fílon revela um significado nas palavras bíblicas que vão além do significado imediato e literal. Este modo de interpretação vai ser muito utilizado pela Patrística. Ele tenta conciliar a filosofia grega e o judaísmo, mas nem os gregos nem os judeus aceitaram muito bem a sua obra, que somente foi reconhecida e aprovada pelos primeiros cristãos.
Fílon estava convencido de que a fé judaica e a filosofia grega coincidiam em diversos pontos, em especial na busca da verdade. Para ele existe um Deus único, incorpóreo e que não tem princípio. Deus criou o Logos, que é a atividade intelectiva de Deus, e ao Logos devemos a criação do mundo. O Logos é o que está entre Deus e os homens, é o intermediário da relação entre os dois. O Logos é o ser mais antigo, o primeiro a ser criado por Deus e é também a sua imagem.
Deus transcende a tudo o que é conhecido pelo homem, ele vai além dos limites da experiência material. O homem tem por fim voltar a se unir a Deus que é perfeito e do qual nós não temos a capacidade de compreensão. Para se unir a Deus o homem tem que se libertar da sua ligação com o corpo.
O homem é constituído por corpo, intelecto e espírito originário de Deus. A inteligência humana pode ser corrompida, e quando é corrompida ela se torna terrena, mas se ela se ligar ao espírito divino ela vai descobrir a verdadeira vida. Segundo Fílon o homem pode levar sua vida de três formas, a primeira é ligada ao corpo como extensão física, essa é a forma mais básica e inferior. A segunda é a dimensão da razão, que é a nossa alma ligada ao intelecto, o homem nessa dimensão utiliza a razão para direcionar sua vida. E a última e superior forma é a ligada ao divino, nessa dimensão a alma e o intelecto tornam-se eternos à medida que estão ligados ao espírito divino.
Sentenças:
- Para a criatura o melhor momento para encontrar seu criador é quando ela se torna nula.
- Devemos viver para Deus e não para nós mesmos.
Fílon de Alexandria
Responsável: Arildo Luiz Marconatto
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