Filosofia - História da Filosofia

Giambattista Vico (1668 - 1744)

Vico é um crítico da filosofia de Descartes e se diferencia dos pensadores iluministas por refletir sobre a religião e a política de forma conservadora tendo por base as teorias do passado e utilizando uma linguagem essencialmente teológica.
A história para Vico é um fluxo evolutivo de acontecimentos que nos leva a uma razão esclarecida, mas para ele existem verdades humanas que não podem ser demonstradas através das evidências racionais como as verdades da história, da poesia, da pedagogia da medicina, do direito, da política, da arte e da moral.
O método racional geométrico cartesiano não nos garante a verdade dos nossos conhecimentos sobre as coisas humanas; a razão e a geometria funcionam muito bem com os números e grandezas mas não tem a capacidade de abranger e explicar as outras matérias, especialmente as humanas. O conhecimento e o entendimento sem defeitos é uma característica de Deus, a nós humanos resta um pensar limitado que vamos reunindo conhecendo algumas características dos objetos que percebemos. Nós e Deus conhecemos as coisas que fazemos, como Deus criou o objeto real ele tem o real conhecimento de tudo, nós conhecemos e criamos objetos ilusórios como a matemática que podemos entender verdadeiramente pois ela é o resultado de uma operação intelectual humana. Para Deus fazer e conhecer são a mesma coisa, para os homens não.
Vico considera que Descartes errou ao acreditar que a matemática, uma criação humana, poderá entender o restante do universo que é uma criação divina. A razão é a consciência do ser, mas não o conhecimento dele. A razão humana não é a causa da existência do homem, não foi a razão que criou o meu corpo, portanto não é ela que vai entendê-lo. A razão também não é a causa da minha mente pois a nossa reflexão é um vestígio, um recurso utilizado pela mente para tentar conhecer, mas não é a totalidade da nossa mente. O pensar nos dá o conhecimento da nossa existência, mas não nos garante o conhecimento total de quem realmente somos.
Giambattista diz que os filósofos e historiadores de sua época estavam fazendo da história uma invenção, uma ilusão criada para exaltar nações ou determinados personagens históricos. A história como exaltação de fatos ou personalidade não representa os princípios fundamentais do homem e da história, que é uma criação do homem. A história tem que ter uma ligação real como o homem, caso contrário ela não se sustenta nem cria tradição.
O homem é o personagem principal da história porque é originalmente um ser sociável e ao se sociabilizar ele cria a história. Além de ser um animal sociável o homem é livre e por isso a história da humanidade é o resultado das escolhas dos homens de cada época. Segundo as palavras de Vico “Enquanto animal o homem pensa somente em sua sobrevivência, mas quando cria família, tem mulher e filhos, ele busca sobreviver junto com sua cidade”.
Seguindo um pensamento de Platão, Vico divide a história em três períodos: dos deuses, dos heróis e dos homens, no primeiro os homens eram ignorantes, insensatos e prevalecia a animalidade, nessa época os homens pouco ou nada usam a reflexão, estão mais ligados aos sentidos. Na época dos heróis prevalece a fantasia, a imaginação, é um período onde a força é a base da estruturação social. No período dos homens o que se destaca é a razão, nessa época os homens atingem a consciência crítica e a sabedoria.
A história é o resultado também das ações divinas mas não de forma direta, para Vico a providência divina criou ideais a serem alcançados pelos homens. Ideais como justiça, verdade e o bem são objetivos que o homem tenta alcançar e tenta fazer isso de maneira livre.
No estudo da linguagem, Vico acredita que o modo de falar popular testemunha com mais veracidade os costumes de um povo. Os sistemas de comunicação que perduram em uma determinada língua são a expressão mais fiel da vida dessas pessoas, razão pela qual não é possível entender uma sem compreender a outra.
Sentenças:
- A fantasia é mais forte quanto mais fraco for o raciocínio.
- O governo segue a natureza dos governantes.
- A poesia dá senso ao insensato.
- A ordem das ideias deve seguir a ordem das coisas.
- A fantasia é a memória dilatada.

Giambattista Vico

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

Herbert Spencer (1820 - 1903)

Desenvolveu uma teoria evolutiva que tenta expor o progresso metafísico do universo com um devir otimista. Acreditava que não podemos conhecer a realidade última do universo, pois ele é um mistério, e tanto a religião como a ciência tentam desvendar esse mistério. As religiões, através de seus dogmas, formulam teorias a priori para tornar inteligível os mistérios do universo, e a ciência, por mais que progrida e formule leis e generalidades mais amplas e mais esclarecedoras, vai cada vez mais aprofundando a inexplicabilidade daquilo que permanece inexplicável. Nesse aspecto, religião e ciência se aproximam e buscam objetivos parecidos, mas com processos diferentes.
O cientista se vê cercado por mudanças perpétuas que não vai poder nunca descobrir o começo e o fim, e percebe, dessa forma, que nada pode ser conhecido em sua essência última. Haverá sempre uma explicação a explicar e a realidade última não pode ser conhecida.
As religiões buscam interpretar constantemente o mistério do universo e a ciência acumula cada vez mais conhecimentos relativos e parciais acerca dele, e por isso tanto uma como a outra demonstram que o absoluto existe, pois se não existisse o absoluto não faria sentido a busca pelos conhecimentos relativos. Nesse sentido religião e ciência podem ser conciliáveis, mas a religião busca manter vivo o mistério e a ciência busca cada vez mais conhece-lo.
Spencer acreditava que nenhuma religião é verdadeira, mas todas fazem uma imagem tênue da verdade absoluta e que com o tempo as diferenças entre religião e ciência tendem a diminuir. Religião e ciência estão ligadas como polos positivos e negativos do pensamento, se uma cresce em intensidade, cresce também a intensidade da outra.
A filosofia para Spencer é a ciência que busca a generalidade mais elevada e os princípios primeiros, nela o conhecimento é levado ao extremo. É na filosofia que todos os conhecimentos existentes se unificam.
A ciência tem três princípios básicos: 1 - A matéria é indestrutível; 2 - O movimento é contínuo; 3 - A força é persistente. A matéria é distribuída através de um movimento contínuo e o repouso absoluto não existe. Todo objeto sofre constantemente e a todo momento mudanças de estado e a lei que rege essas mudanças é a lei da evolução do universo.
A evolução tem três particularidades, a primeira é a mudança de um estado menos lógico e coerente para um estado mais lógico e coerente, a segunda é a mudança evolutiva de um estado homogêneo para um estado heterogêneo, a terceira é a mudança do indefinido para o definido. Essas leis valem tanto para os seres vivos como para qualquer realidade, como a da linguagem, das artes ou das civilizações.
A evolução é necessária, progressiva e busca o equilíbrio, no caso dos homens a evolução vai nos levar à perfeição e à felicidade. Sustentava ainda - antes de Darwin - que a vida é a adaptação dos organismos aos desafios do ambiente, e a adaptação se dá através da diferenciação dos órgãos dos organismos, e essa diferenciação vai favorecer o organismo mais conveniente. Acreditava ainda que essas mudanças eram transmitidas por hereditariedade e que a vida surgiu de uma massa inorgânica indiferenciada, mas com capacidade de se organizar.
Para Spencer existem elementos a priori na consciência humana, mas esses elementos são a posteriori para a espécie, ou seja, determinados comportamentos constantes e uniformes encontrados nos indivíduos, como a busca pela alimentação, são o resultado da experiência preservada no desenvolvimento da espécie e transmitidas por hereditariedade através da estrutura neuronal.
Em seus escritos sociológicos defendeu que a sociedade existe para o indivíduo e as sociedades se desenvolvem através da realização dos indivíduos a ela pertencente.
Os valores morais são instrumentos de adaptação do homem às condições em que está vivendo e são também comportamentos, regras e experiências selecionadas pela evolução e transmitidas hereditariamente, como proteger a família e transmitir conhecimentos para os filhos.

Sentenças:
- No casamento se coloca uma aliança no dedo da mulher e outra no nariz do homem.
- O progresso não é um acidente, mas uma necessidade.
- A civilização é um produto da natureza.
- O que não extingue a raça humana, passa a fazer parte dela.
- A opinião é determinada pelos sentimentos e não pelo intelecto.
- O mais apto sobrevive.
- A ciência é conhecimento organizado.
- Não existe exceção nas regras da natureza.
- Ninguém pode ser perfeitamente livre até que todos sejam.
- Ninguém pode ser completamente moral até que todos sejam.
- Ninguém pode ser totalmente feliz até que todos sejam.

Herbert Spencer

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

John Stuart Mill (1806 - 1873)

Acreditava que a felicidade não pode ser alcançada diretamente pois ela não pode ser o objetivo último da vida, mas para atingi-la temos que alcançar as felicidades paralelas como a felicidade dos outros, o progresso da humanidade e o desenvolvimento das artes.
A lógica é a ciência da evidência e da autenticidade e Mill estuda a lógica dos conceitos e das proposições pois são nas proposições que habitam toda a verdade e todo erro, e elas tem que extrair sua verdade ou sua falsidade da experiência. As proposições são as células que formam o corpo de toda argumentação e as experiências que formam as células são sempre singulares, ou seja, todos os conhecimentos e todas as verdades da humanidade são de natureza empíricas.
Mesmo as verdades da ciência são empíricas, como as verdades da geometria, que em suas linhas e ângulos tem por base figuras que verdadeiramente existiram. As proposições da geometria são o resultado de experiências, observações e generalizações. As deduções ou demonstrações são evidenciadas pela experiência e as induções são a generalização das experiências.
Para entender melhor o processo de formação de induções Mill propõe quatro métodos: o da concordância; da diferença; das variações concomitantes; e o método dos remanescentes. Todos esses métodos têm por fundamento e justificação a uniformidade da natureza pois ela é dirigida por leis e conhecendo essas leis podemos inferir que o futuro será similar ao passado e que o que desconhecemos será parecido com o que conhecemos. Os fatos não conhecidos se assemelham aos fatos conhecidos.
Sobre a psicologia Mill afirma que ela tem por objeto de estudo a regularidade, frequência e sequência dos estados mentais e a influência das circunstâncias no caráter dos indivíduos. Assim sendo a psicologia é base para os estudos das ciências sociais, pois as ações coletivas são o resultado das ações individuais.
Em seus escritos políticas Mill defende que cada um é responsável e guardião de si mesmo e, portanto, é livre para viver do jeito que bem quiser. O limite dessa liberdade é a liberdade do outro quando vivemos em sociedade. A liberdade civil é a liberdade de pensamento, de religião, de expressão, de ser conforme o caráter próprio, e de associação.
Acreditava ainda que as mulheres historicamente foram marginalizadas pelos homens para benefício destes. E que para acabar com essa marginalização devem ser criadas condições sociais de igualdade entre homens e mulheres através de instrumentos políticos.

Sentenças:
- É preferível ser um Sócrates doente do que um jumento satisfeito.
- Se perguntarmos se somos felizes, deixamos de sê-lo.
- Quem só conhece seu próprio lado do problema sabe pouco sobre ele.
- É perigoso sermos pouco excêntricos.
- As pessoas param de progredir quando perdem a individualidade.
- O gênio só pode respirar livremente numa atmosfera de liberdade.
John Stuart Mill

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

Auguste Comte (1798 - 1857)

Para Comte a sociedade, os grupos humanos, as civilizações e os indivíduos em seus psiquismos durante seu desenvolvimento passam por três estágios: 1 - Teológico ou fictício; 2 - Metafísico ou abstrato; 3 - Científico ou positivo. No estagio Teológico os fenômenos são interpretados como resultado da ação de agentes sobrenaturais. No estágio Metafísico busca-se a essência dos fenômenos ou ideias abstratas para explicá-los. Já no estágio Positivo os fenômenos são explicados através das suas leis efetivas, e para isso são utilizados o raciocínio e a observação para descobrir as relações invariáveis de sequência e semelhança.
Tanto os indivíduos como os grupos humanos e suas criações iniciam seu desenvolvimento no estágio Teológico, mas é no estágio Positivo que vão encontrar seu estado estável e definitivo, o estágio Metafísico serve apenas como transição.
No estágio Positivo o espírito humano vai reconhecer a impossibilidade de se alcançar conhecimentos absolutos e vai deixar de se perguntar sobre as origens, o destino e às causas fundamentais do universo. Os homens são teológicos na infância, metafísicos na juventude e físicos na maturidade.
Os fenômenos sociais têm que ser interpretados pela filosofia positiva submetendo a sociedade a uma rigorosa pesquisa científica e através dessa pesquisa serão encontrados fundamentos sólidos para que se possa reorganizar a sociedade. Para se resolver as crises sociais temos que conhecer os fatos sociais e políticos. As pesquisas científicas da sociedade vão descobrir as leis que estão por trás dos fenômenos sociais, que tendem a ser constantes, e podem ser previstos, e prevendo esses fenômenos eles podem ser modificados em benefício da sociedade. Em resumo, a ciência nos leva à previsão e a previsão nos leva à ação.
A ciência nos permite dominar a natureza, e a ciência são leis descobertas e estabelecidas através da observação dos fatos. A sociologia estuda os fatos sociais para que se possa alcançar uma ordem social, sem idealidades metafísicas, mas com realidades observadas.
A sociologia para Comte é dividida em estática social e dinâmica social, a estática social estuda o que existe em comum em todas as sociedades, que são a sociabilidade, o núcleo familiar e a divisão do trabalho, que se combinam em uma cooperação de esforços. A estática social estabelece a conexão entre os diferentes aspectos da vida em sociedade, como a política, a economia e a cultura.
A dinâmica social vai estudar as leis através das quais a sociedade se desenvolve, e essas leis são os três estágios. O progresso social segue essas leis.
A estática social estuda a ordem e a dinâmica social estuda o progresso da sociedade. O desenvolvimento e o progresso social seguem os três estágios porque as pessoas também seguem os três estágios em seu desenvolvimento, a história da humanidade é o reflexo da natureza humana.

Sentenças:
- Cada vez mais os mortos governam os vivos.
- Cansamo-nos de agir e de pensar, mas jamais de amar.
- O Amor por princípio, a Ordem por base e o Progresso por fim.
- Saber para prever a fim de poder.
- Muito mais que os interesses, é o orgulho que nos divide.
- Só existe uma máxima absoluta: Nada é absoluto.
- As mulheres vivem numa infância perpétua.

Auguste Comte

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

Søren Aabye Kierkegaard (1813 - 1855)

Kierkegaard é um profundo cristão, e tenta viver seu cristianismo também de forma verdadeira e profunda, e para ele isso significava estar em constante luta interior, em temer, ter escrúpulos, se angustiar, se rebaixar e se humilhar. Para ele o cristianismo não é uma cultura, a cultura é a cristandade, o cristianismo não pode se prender às aparências, pois viver o verdadeiro cristianismo é decidir toda a eternidade. Cristianismo é inquietação do espírito, é temor e tremor constante de quem tem que um dia prestar conta da vida que levou.
Ele acreditava que a história tinha transformado o cristianismo em cultura cristã superficial, uma cultura desenvolvida para facilitar responder à busca de um sentido para a vida com elementos sem importância. O cristianismo é visto como um instrumento para viver a vida em paz e serenidade. Essa forma de cristianismo esconde e dissimula o verdadeiro aspecto do cristianismo. As pessoas que assim vivem brincam de ser cristãos.
O ser humano é finito e têm que constantemente fazer escolhas, essas escolhas podem levar o indivíduo a uma vida ética e essa vida ética pode levar as pessoas a uma vida de fé, e é na fé que o sujeito pode se encontrar com a singularidade de Deus. Mas a fé vai além da ética e o exemplo é Abraão que pela fé escolhe matar o próprio filho. A escolha de Abraão é uma escolha trágica e conflituosa, como todas as outras escolhas de um verdadeiro cristão.
Outro conceito importante para Kierkegaard é o de angústia, pois nela se expressa a possibilidade da liberdade de escolha, e é ela que nos encaminha para a verdadeira fé, e a fé nos livra do desespero. A fé torna nossa existência autêntica, pois somente através da fé podemos acessar a transcendência em Deus.
Kierkegaard, criticando Hegel - para quem uma das tarefas da filosofia era conceituar o mundo -, diz que a filosofia está interessada somente em criar conceitos e não se preocupa com a existência concreta dos indivíduos e das suas relações. Nossa existência não é um conceito. Os filósofos constroem castelos conceituais, mas vivem em celeiros existenciais.
A filosofia não deve ser utilizada para justificar o cristianismo, pois o verdadeiro cristianismo é crença e não justificação, e essa crença é subjetiva, ou seja, a relação com Deus é direta, não existe ninguém entre o indivíduo e Deus.
A existência humana é liberdade, pois os indivíduos são o que escolheram ser, o que escolheram fazer da sua existência dentro das suas possibilidades, inclusive da possibilidade de não escolher e ficar paralisado ou de se perder. A percepção dessa possibilidade causa a angústia pelo futuro a ser definido pela liberdade, futuro e angústia andam juntos.
Além da angústia, outra característica humana é o desespero do indivíduo que não se aceita em toda sua possibilidade e profundidade. O desespero é a doença mortal, é viver a morte do eu quando o indivíduo não aceita estar nas mãos de Deus. Negando Deus o homem se reduz a nada.
Para Kierkegaard, diante da ciência é Deus que tem a preferência, toda ciência do mundo não tem grande importância. A verdadeira existência é vivida na fé, a ciência é uma existência sem autenticidade.

Sentenças:
- A inveja é uma admiração escondida.
- Sem pecado, nada de sexualidade, e sem sexualidade, nada de História.
- A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas ela só pode ser vivida olhando-se para frente.
- Nada é superior em sedução e maldição do que um segredo.
- Não se esqueça da obrigação de amar a si mesmo.
- Os homens persegue o prazer com tanta impetuosidade que passam por ele sem vê-lo.
- Ficar em pé e provar a existência de Deus é diferente de ficar de joelhos e agradecê-Lo.


Søren Aabye Kierkegaard

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

Arthur Schopenhauer (1788 - 1860)

A filosofia de Schopenhauer inicia como oposição e crítica à filosofia de Hegel, ele acreditava que os pensamentos de Hegel tinham se tornados oficiais e estatais e defendiam interesses pessoais, não buscando mais a verdade.
O mundo é representação minha. Dessa forma inicia-se a principal linha de pensamento de Schopenhauer. Nós não conhecemos o mundo como ele realmente é, somente temos instrumentos sensoriais que nos mostram o mundo dentro das suas capacidades perceptivas. O mundo é uma construção nossa, é uma representação nossa. O conhecimento é a relação entre o sujeito e o objeto, dessa relação surge a representação. Nós não podemos sair de nós mesmos para ver como o mundo realmente é.
Para que a representação exista é necessária a relação entre o sujeito e o objeto, dessa relação o sujeito é a parte que conhece, é ele que sustenta o fenômeno da representação e do conhecer. O objeto é o que é conhecido e está condicionado pelo espaço e pelo tempo, ao contrário do sujeito que está fora do espaço e do tempo. Não podemos separar sujeito de objeto nem mesmo no pensamento, pois o sujeito não tem sentido sem o objeto e o objeto não tem sentido sem o sujeito, um vive e existe em função do outro.
O objeto não existe sem o sujeito, como querem os materialistas, e o sujeito não existe sem o objeto, como desejam os idealistas. A objetividade existe na consciência dos sujeitos como representação e é condicionada pelo sujeito conforme suas formas de representar. O mundo como o percebemos é um conjunto de representações dependentes da consciência, do espaço e do tempo.
Para criar a representação do mundo, nosso intelecto organiza as formas a priori do tempo e o espaço utilizando a categoria da causalidade. A causalidade não é somente a sucessão no tempo, mas é a ligação de determinado tempo em determinado espaço simultaneamente, e ambos não podem ser separados.
Schopenhauer acredita que existam quatro princípios da causalidade que vão determinar como podemos conhecer o mundo: 1 - Devir, é a causalidade entre objetos naturais, expressa pela física; 2 - Conhecer, é a relação entre as premissas que leva à conclusões consideradas verdadeiras, expressa pela lógica. 3 - Ser, é a relação entre o espaço e o tempo, expressa pela matemática. 4 - Agir, é a relação entre a motivação e a ação, expressa pela moral. Essas quatro formas vão estruturar todas as nossas representações.
O mundo como representação é um fenômeno, e o fenômeno é uma percepção deformada do objeto que cobre a essência da realidade, realidade essa que pode ser alcançada pela vontade, e a vontade é a representação que fazemos do nosso corpo, e o corpo é o objeto imediato da nossa consciência. A vontade é onde não podemos mais diferenciar de forma transparente o sujeito do objeto, a vontade é a essência do nosso ser, e ela se manifesta na racionalidade do homem.
A vontade é a essência do mundo e é conflito que leva à dor causada pela força contínua opositora entre as vontades do mundo. A vontade nasce do descontentamento do próprio estado e é um sofrimento enquanto não é satisfeita, mas mesmo que satisfeita a satisfação não dura e a vontade satisfeita se inclina para um novo estado de descontentamento, em um processo de geração de vontades infinito, sendo também infinita a dor e o sofrimento gerados nesse processo.
Essa cadeia de geração de vontade e sofrimento só pode ser superada através da arte. Na experiência estética o homem se anula como vontade esquecendo-se de si mesmo e do seu sofrimento.

Sentenças:
- A vida é luta contínua pela existência, com a certeza da derrota final.
- A vida é um velejar em direção ao naufrágio.
- A vida é necessidade e dor.
- A vida oscila entre a dor e o tédio.
- Dos sete dias da semana, seis são de dor e necessidade e um é de tédio.
- O homem é o único animal que faz os outros sofrerem só para os ver sofrer.
- O homem sente prazer com o mal alheio.
- Na vida humana a infelicidade é a regra.
- A vida é esmola que prolonga a vida para seguirmos no tormento.
- A história é acaso cego e o progresso é ilusão.


Arthur Schopenhauer

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

Karl Marx (1818 - 1883)

O pensamento de Marx iniciou-se como uma crítica aos pensamentos de Hegel. Segundo Marx, os movimentos dialéticos da sociedade se desenvolvem como um resultado das condições materiais da vida dos homens, ou seja, não são as ideias que formam a sociedade, mas as condições materiais dos homens é que produzem as suas ideias e o seu modo de agir na sociedade. Não é a religião que cria o homem, mas o homem que cria a religião, não é a constituição que desenvolve um povo, mas um povo que desenvolve uma constituição. Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência.
A raiz do homem é o próprio homem em sua condição material, e não em sua condição ideal. A liberdade desse homem não passa pela filosofia, pela teologia ou pela autoconsciência, mas pela sua condição histórica e material. Dessa forma Marx acredita unir a teoria à prática.
E a libertação do homem começa pela libertação da sua exploração, e libertá-lo de ser explorado passa pelo fim do capital, pois o capital é a propriedade privada dos produtos do trabalho de outros homens. A propriedade privada não existiu sempre, e nem sempre existirá, ela é uma criação humana e como tal também pode ser modificada ou destruída.
O capital é o trabalho expropriado dos trabalhadores, o capital é o trabalho alienado dos trabalhadores, o capital surge da exploração dos trabalhadores e torna-se estranho a esses mesmos trabalhadores, pois não lhes pertence mais. Quanto mais o trabalhador é explorado, mais o capital não é reconhecido por ele, da mesma forma que quanto mais o homem põe em Deus, menos conserva de si e para si. O trabalho é vida de trabalhador que se torna objeto, objeto que não lhe pertence, que lhe é alheio, que lhe é alienado. O trabalhador, com seu trabalho, cria objetos que não lhe pertencem mais, assim como a vida, em forma de trabalho colocada nesses objetos, também não lhe pertence mais. A vida do trabalhador torna-se estranha a esse mesmo trabalhador, isso é alienação.
Marx concorda com Feuerbach quando este diz que os deuses são uma criação e uma projeção humana, mas o critica por não perceber que os homens criam deuses somente quando sua existência social de explorados e alienados os impossibilita de se desenvolverem totalmente como seres humanos. Para Marx, o homem religioso é um alienado, e para libertá-lo dessa alienação é necessário mudar a sua condição de vida material. Os deuses mudam conforme a condição socioeconômica do crente. Quanto melhor a situação sócio-material dos homens, menor será a importância dos deuses.
O homem tem a capacidade de criar-se, de desenvolver-se enquanto homem, de progredir em suas habilidades e de humanizar a natureza em sua volta conforme suas necessidades e seus conceitos. O trabalho é algo natural e inerente ao homem e é um dos instrumentos que ele utiliza para transformar a natureza. O trabalho nos diferencia dos outros animais. Mas o próprio homem desvirtuou essa função do trabalho, fazendo dele um instrumento de exploração do homem pelo homem. O trabalho tornou-se forma de subsistência da maioria dos trabalhadores explorados. Com a exploração o resultado do trabalho é extorquido do trabalhador e o operário se torna também mercadoria. A isso Marx chama de alienação do trabalho, o trabalho torna-se externo ao trabalhador.
Para Marx não existe um espírito da história e da humanidade, com queria Hegel, mas a história é uma construção dos indivíduos reais. A religião, a moral e até mesmo a metafísica não tem uma história própria, elas mudam conforme mudam as bases das relações econômicas entre os indivíduos. As ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante dessa época. Esse é o materialismo histórico marxista.
A história da humanidade é a história das lutas entre as classes da sociedade, é a história dos conflitos entre os explorados e os exploradores, entre os oprimidos e os opressores.
Marx estuda de forma profunda o surgimento e o desenvolvimento do capital, para ele o valor de uma mercadoria não está no objeto que é essa mercadoria, mas na quantidade de trabalho humano necessário para produzir essa mercadoria. A relação de valorização e de permuta entre mercadorias, mesmo através da moeda, é uma relação entre produtores, entre trabalho humano, entre homens.
É na luta de classes, na realidade social contraditória, que acontece a dialética marxista, pois todo fato histórico gera contradições que vão ser a mola propulsora do desenvolvimento histórico. Um desses fatos históricos é o trabalho produzido pelo trabalhador que é expropriado pelo capitalista, a essa expropriação Marx chama de mais-valia.  A mais-valia tende a aumentar gradativamente, aumentando também a desigualdade entre os explorados e exploradores, o que, segundo ele, vai inevitavelmente desintegrar a sociedade capitalista e criar uma sociedade comunista, onde a exploração e a alienação não mais existirão.

Sentenças:
 - Os filósofos se preocupam em interpretar o mundo. Mas o que importa é transformá-lo.
- A religião é o suspiro de uma criatura aflita, o coração de um mundo sem coração, é o espírito da situação sem espírito. A religião é o ópio do povo.
- De cada um, de acordo com suas possibilidades, a cada um, de acordo com suas necessidades.
- Os homens fazem a sua própria história.
- A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.
- O governo é o conselho de administração que rege os interesses coletivos da classe burguesa.
- A história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa.
- A história é a atividade do homem perseguindo seus objetivos.
- O dinheiro é o deus ciumento de Israel, ao lado do qual nenhum outro deus pode existir.
- Na fábrica o trabalhador é um servo da máquina.
- A história da sociedade é a história da luta de classes.
- Os operários não têm pátria.
- Proletário do mundo todo, uni-vos.
- As ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante dessa época.
- Os trabalhadores não têm nada a perder, a não ser suas correntes.


Karl Marx (1818 - 1883)

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

Ludwig Feuerbach (1804 - 1872)

De forma geral podemos dizer que Feuerbach, em sua filosofia, converte a teologia e a religião em uma antropologia. Nesse contexto, o papel da filosofia não é o de zombar ou desprezar a religião ou a teologia, pois ambas são um grande e importante fenômeno humano, e como tal tem que ser respeitadas. Mas mais que respeitadas a religião e a teologia tem que ser compreendidas.
Para compreendermos a crença dos homens em um Deus temos que compreender que a consciência que o homem tem de Deus é a consciência que o homem tem de si mesmo. Deus é a expressão do que mais de profundo existe no ser humano, e somente isso.
Teologia é antropologia e todos os discursos sobre os Deuses são discursos sobre o ser humano, suas capacidades, frustrações e projeções.
A natureza é dura com os humanos e os nossos sofrimentos não são ouvidos pela natureza, e necessitamos ser ouvidos, acalentados, compreendidos, e como a natureza não nos ouve, acalenta o compreende, nós buscamos tudo isso em algo fora de nós e fora da natureza, em um Deus.
Nós construímos Deuses para que eles sejam o que não somos, construímos Deuses para explicar o que não explicamos, ser o que não somos e poder o que não podemos. E em relação com esse Deus, que é o que não somos, podemos, de alguma forma, também ser o que percebemos não poder ser. Em Deus nós projetamos a nossa essência e projetamos o que não conseguimos ser em essência. Nas palavras de Feuerbach, Deus é o espelho do homem.
A religião, para Feuerbach, é um acontecimento completamente humano e para compreendermos o humano em sua profundidade temos que conhecer as religiões também com profundidade. O mistério humano vai ser desvendado pelo mistério divino, mas não o humano como criação do divino, e sim o divino como criação do humano, pois não é Deus que cria o homem e sua condição, mas o homem que cria Deus e suas condições. O espírito divino é a abstração do espírito humano.
A filosofia de Feuerbach é humanista com grande profundidade, pois busca transformar a dependência que os homens têm de Deus em uma compreensão que o homem pode ter de si mesmo. Como exemplo ele coloca que a moral e o respeito que temos que ter com os Deuses, é a projeção da moral e do respeito que os homens têm que ter com os outros humanos.
O homem de Feuerbach não é um homem abstrato, mas um homem real, inserido em uma natureza, com um corpo sensível e com necessidades próprias. Esse homem concreto é, em grande parte, o oposto do homem idealista hegeliano. Esse homem concreto e real é que cria os Deuses nos quais projeta a sua natureza, sua corporeidade, sensibilidade e necessidade.
O homem coloca em Deus as qualidades, desejos e aspirações que não consegue realizar em si próprio. O homem percebe que não sabe tudo e projeta em Deus a onisciência que não tem. O homem é limitado em seus poderes e projeta em Deus a onipotência que não tem. O homem é limitado em seu tempo e espaço e projeta em Deus onipresente a temporalidade e espacialidade que não tem. O mesmo evento ocorre com a transcendência, eternidade, imutabilidade e santidade de Deus, que são todos atributos que o homem deseja para si, mas como não alcança, projeta em Deus e se faz dependente dele.
A religião, relação humana com o divino por ele próprio criado, é a relação do homem com a sua própria essência, mas como essência de Deus. A relação do homem com Deus é portanto falsa, pois o homem alienado, no fundo, tenta relacionar-se consigo. A oração que os homens dedicam a Deus é a oração que os homens dedicam a si próprios. A religião é humana, totalmente, essencialmente e profundamente humana.
Os princípios divinos são princípios humanos. O valor divino é do mesmo tamanho do valor humano que o criou. Para conhecer profundamente o humano, conheça profundamente o seu Deus, Deus revela a essência humana que o homem projetou nele.
A moral de Feuerbach inverte os papéis e objetivos, a moral religiosa aconselha o amor a Deus, Feuerbach aconselha que o amor do homem deva ser direcionado ao homem e em nome do homem.

Sentenças:
- Quando a moral se baseia na teologia, as coisas mais imorais e injustas podem ser justificadas e impostas.
- O homem é aquilo que come.
- As característica de Deus são as características do homem.
- As religiões nos diferenciam dos animais.
- Os princípios e pensamentos do homem são os princípios e pensamentos de seu Deus.
- O homem vale tanto quanto seu Deus.
- A religião é a infância da humanidade.
- O verdadeiro ateu é o que não acredita no homem.
- O homem afirma em Deus o que nega em si mesmo.
- Deus é a medida da tua inteligência.
- O homem criou Deus à sua própria imagem.
- O coração de Deus é o coração do homem.
- O Deus que se revela na natureza é a natureza mesmo se revelando.
- A unidade é estéril, o dualismo é fecundo.


Ludwig Feuerbach (1804 - 1872)

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 - 1831)

Hegel busca entender o homem em sua totalidade, ou seja, tenta compreender todos os aspectos do ser humano e explicar tudo que o ser humano vive e é através de um único sistema. Todo o universo, tudo que existe, existiu ou vai existir, inclusive a história e o tempo, são vistos como um único organismo em constante mudança e o ser humano é somente parte desse organismo e provavelmente não a mais importante.
Esse todo, essa totalidade, em seu desenvolvimento, segue princípios do que ele chama de espírito racional, que é infinito. O espírito racional é o que direciona a vida da totalidade do mundo. Conhecer esse espírito racional é o grande objetivo da filosofia. Essa racionalidade não é algo separada da realidade, ao contrário, são a mesma coisa: "o que é real é racional e o que é racional é real", nas palavras de Hegel.
A racionalidade cria a multiplicidade através da criação de conceitos e a criação de conceitos opostos é que gera o movimento dialético, a dialética é, portanto, a vida da racionalidade. Em outras palavras, a razão cria a realidade quando conceitua essa realidade e cria a mudança da realidade quando cria conceitos diferentes ou opostos para a realidade, esses conceitos opostos ou diferentes vão interagir entre si e criar algo que pode ser novo, esse é o movimento dialético. Além disso, a dialética é especulativa, ou seja, ela busca a construção de novos conhecimentos por meio de novas teorizações, de indagações e da criação de novos conceitos.
Mas a realidade só existe como conceito racional, seja em que parte da dialética ela estiver. Conceituamos quando trazemos para a razão o mundo dos fatos, mas tudo o que está em nós são conceitos, dessa forma a realidade é conceituação racional.
A dialética tem três momentos, o primeiro é o "ser em si", o segundo é o "ser outro ou fora de si" e o terceiro é o "retorno a si ou ser em si e para si", num exemplo do próprio Hegel: "A semente é em si a planta, mas ela deve morrer como semente e, portanto, sair fora de si, a fim de poder se tornar, desdobrando-se, a planta para si (ou em si e para si)".
A construção da realidade e da verdade é um constante processo entre o ser e o não ser. A conceituação, a construção da realidade pela nossa racionalidade, é algo que vem do nada e tem a possibilidade de ir para o nada no processo dialético. Ou nas palavras do autor: "o ser e o nada são uma só e mesma coisa".
O espírito racional trabalha ainda como pano de fundo da história, que é uma série de ações e criações irreversíveis que visam um objetivo buscado pelo espírito racional, objetivo esse que nós, enquanto indivíduos isolados, não temos como perceber na história.
Para o ser humano a história pode parecer um conjunto de acontecimentos não necessários, inconstantes e sem significado, mas isso acontece porque buscamos nela os nossos interesses isolados e não os objetivos do espírito racional que é o que forma e dá sentido à história. Os homens tem a ilusão de que comandam e constroem a história, mas o que acontece é o contrário, os homens são elementos descartáveis para que se possa cumprir na história os objetivos do espírito racional. Os homens não colhem os frutos do seu trabalho que ficam sempre para as gerações seguintes.

Sentenças:
- A mente da mulher não é adequada às ciências mais elevadas.
- Quem quer algo de grande deve saber limitar-se.
- Nada de grande é realizado sem Paixão.
- É bem vinda a dor causada pelo arrependimento.
- Cem anos de injustiças não criam o direito.
- Deus não quer espíritos pequenos nem cabeças vazias.
- Escolher entre o bem e o mal é fácil, difícil é escolher entre o bem e o bem.
- O Estado é o fim e os cidadãos os meios.
- O que o homem é, é através da educação e da disciplina.
- O povo é a parte do Estado que não sabe o que quer.
- História é caminhar entre as ruínas do passado.
- A contradição é a raiz de todo movimento.
- A filosofia é o mundo ao contrário.
- Independente é o homem que sabe o que o determina.
- Liberdade é a compreensão das necessidades.
- A vida é luta e sofrimento.
- As diferenças de classe são universais.
- As tragédias surgem no choque entre direitos.
- A história nos ensina que ela não nos ensina nada.
- Os grandes homens foram infelizes.
- Pensar e amar são coisas diferentes.
- Se nada sabemos de Deus a religião é supérflua.
- Quando algo desaparece outra coisa toma seu lugar.

Georg Wilhelm Friedrich Hegel

Arildo Luiz Marconatto

Friedrich Wilhelm Schelling (1775 - 1854)

Schelling acreditava que a natureza é tão real e tem a mesma relevância que o eu, e mais, afirmava que os objetos da natureza, a sua objetividade, é que dá à nossa consciência o substrato, a matéria que iremos reproduzir em nossa consciência. Na origem, a natureza e a consciência eram uma mesma coisa, estavam ligadas em uma unidade infinita. Mas com a separação entre as duas, nossa consciência deu a si mesma um limite e o limite da nossa consciência é ela mesma, e assim se limitando ela se torna finita e diferente da natureza. A essência dessa consciência, que limitou a si mesma, é o espírito, mas a essência da natureza é a matéria e a essência da matéria é a força.
O homem e a sua racionalidade é a mais elevada criação da natureza. A natureza, tentando refletir a si mesma, cria a razão. O mundo objetivo e natural é inteligência que não amadureceu ainda, é inteligência que não atingiu a sua maturidade. A natureza é idêntica a nós mesmos enquanto princípio de inteligência, nós somos o produto mais acabado da natureza, mas temos a mesma origem. O homem é o fim último da natureza porque é somente nele que se manifesta o espírito.
A matéria e a força, que são os fundamentos da natureza, tem que ser interpretados pela ciência como um todo e não como fragmentos, e o que possibilita a unificação da natureza é a força enquanto essência da matéria. Essa força o filósofo define como sendo uma atividade pura. A natureza é, portanto uma atividade em si mesma e que não acaba nunca, infinita. Nessa natureza existem duas tendências, uma é a dispersão e a outra é a unificação. A realidade é o movimento dialético dessas duas tendências que tendem a uma síntese que vão gerar novas incoerências e assim progressivamente.
Outro importante problema que Schelling tenta resolver é o de como as nossas representações influenciam ou determinam os objetos e de como os objetos influenciam ou determinam as nossas representações. Ele tenta entender como o sujeito se relaciona com o objeto e vice-versa. Para ele a solução desse problema está na estética, pois na arte estão unidos tanto o espírito como a natureza. A arte é uma atividade ao mesmo tempo consciente e inconsciente, é o espírito e a natureza juntos na mesma atividade gerando a beleza. A obra de arte é algo finito, mas como uma significação infinita.
A filosofia tem a pretensão de validade universal, mas nunca atingirá essa validade, a arte sim pode atingir a objetividade absoluta. Se tirarmos a objetividade da arte, ela se torna filosofia e se colocarmos objetividade na filosofia, ela se torna arte.

Sentenças:
- A matéria é espírito apagado.
- A arte deve começar na consciência a terminar na inconsciência.
- Somos conscientes da produção, mas inconscientes do produto.
- Natureza é espírito visível e espírito é natureza invisível.
- A natureza é vida adormecida.
- Conhecer é aprender para criar.
- As ideias são ações com significado ético.

Friedrich Wilhelm Schelling

Arildo Luiz Marconatto

Johann Gottlieb Fichte (1762 - 1814)

Fichte é considerado o fundador do idealismo moderno, para escrever sua filosofia ele toma a filosofia de Kant como ponto de partida e tenta chegar a algumas propostas que, segundo ele, Kant não tinha demonstrado ou exposto de forma clara.
Foi em Kant que Fichte encontrou inspiração para sua vida pessoal e para sua filosofia, em especial sobre as questões da liberdade, que para ele não é um fim em si mesmo, mas uma constante busca e um mérito a ser alcançado. A partir do conceito de liberdade Fichte fundamenta o dever, a virtude e a moral em geral.
Fichte busca construir um sistema para tornar a filosofia uma ciência precisa e que surgisse de um princípio único e superior, esse sistema o autor chama de doutrina da ciência, onde ele tenta unificar as três Críticas de Kant.
A principal inovação na filosofia de Fichte consiste em modificar o Eu Penso de Kant em seu Eu Puro, que é pura intuição, que se autocria, se autopõe, e se autocriando cria toda a realidade. Outra novidade no filósofo é identificar a essência desse eu que se autocria com a liberdade.
Esse Eu Puro de Fichte é uma intuição intelectual, o eu entende a si mesmo e se autodeclara, dessa forma esse Eu provê o fundamento das coisas em si e dos fenômenos do mundo, assegurando a união entre o intelectual e o sensorial. Assim o Eu Puro torna-se a origem única e que está acima de todos os outros princípios. Esse Eu Puro elimina o ceticismo e fundamenta a filosofia como ciência. Quando o Eu Puro se divide dá origem ao Eu Prático que acaba por fundamentar o Eu Teórico.
O Eu fundamenta a ciência pelo fato de que é o Eu que pensa e pensando dá sentido a todas as ligações lógicas que estão na base da ciência. O eu é condição de si mesmo, ele compõe a si mesmo, o eu é da forma que ele se fez a si mesmo. O eu é autocriação.
Para Fichte até o Ser é algo derivado da ação do Eu, ou seja, não é a ação que vem do Ser, mas ao contrário, é o agir do Eu que define e cria o Ser. O Ser é o resultado do agir, e quem age inicialmente é o Eu.
O Eu Puro, a inteligência, é algo ativo e sem restrições e não algo passivo e restrito ou dependente. E ela é ativa por ser o princípio primeiro e absoluto do qual derivam todas as outras coisas.
Esse Eu Puro, essa inteligência, não é o eu e a inteligência do homem prático, mas o Eu e a inteligência absoluta.
Mas o Eu não pode ficar isolado no mundo, ele precisa de um contraponto, de uma antítese, e como ele se pôs, ele vai criar um não eu para se contrapor à sua posição. Tanto o Eu como o não eu são ações do Eu, o não eu é uma necessidade para que o Eu possa se identificar como tal. O não eu não está fora do Eu, ele faz parte do Eu pois nada pode ser pensado fora do Eu.
Fichte já desenvolveu a tese – o Eu cria a si próprio. Desenvolveu a antítese – o não eu. O terceiro passo é desenvolver a síntese, que para ele se caracteriza na delimitação, ou seja, nem o Eu nem o não eu podem eliminar-se reciprocamente, mas um delimita o outro.
O Eu e o não eu estão em antítese e se limitam reciprocamente, quando o não eu determina o Eu ocorre o conhecimento, quando o Eu determina o não eu ocorre a atividade prática e moral. Esse processo é uma relação dinâmica e infinita. E nessa relação o Eu pode desenvolver a liberdade, que será sempre um processo ilimitado, a liberdade é uma construção constante e infinita.
Moralmente o homem só será completo ao se relacionar com outras pessoas e como são diversos os homens, diversas são também as aspirações e elas podem entrar em oposição. Para gerir as diversas oposições de aspirações humanas é que surge o Estado e o Direito. O eu é livre, mas na convivência como outros seres livres ele deve limitar sua liberdade, ou seja, cada ser livre deve demarcar sua liberdade para que cada um possa praticar a sua.
Fichte acreditava ainda que quando uma pessoa escolhe uma determinada forma de filosofar ele também está dizendo que aquela é a sua forma de ser como homem, pois a filosofia não é inativa, não é uma ferramenta inerte, mas é viva e animada pelo espírito do filósofo.
O filósofo se preocupa ainda com a educação, e em especial com a educação pública. A educação tem que ser pública e nesse sentido encontrar fundamentação em um estado de direito e encontrar sua normatividade em uma ordenação jurídica. Por outro lado a educação tem um caráter humano e pessoal, ou seja, ela deve ser guiada por uma vontade humana de autorrealizar sua liberdade. Essa educação para a liberdade exige a instauração das condições materiais necessárias para sua realização, mas ela é também um projeto social e exige também uma realização enquanto coletividade.

Sentenças:
- Não existe forma para tornar alguém filósofo.
- Não nos tornamos filósofos, nascemos filósofos.
- O saber não é o absoluto, mas é absoluto como saber.
- Teus atos, e não os teus conhecimentos, é que determinam o teu valor.
- O fim da humanidade é a unidade de todos seus membros.
- A escolha de uma filosofia depende do que se é como homem.
- O homem pode o que ele deve, e se diz Eu não posso, é porque não quer.
- Nós agimos porque conhecemos, mas conhecemos porque precisamos agir.
- A razão prática é a raiz de todas as razões.
- A essência de Deus é a beleza.
- Viver de verdade significa pensar verdadeiramente.
- Age de modo a poder conceber a máxima da tua vontade como lei eterna para você.
- O que te deixa feliz pode não ser bom, mas o que é bom te deixa feliz.
- Sociedade é a realização recíproca de seres racionais.
- Livre é quem tenta fazer livre todos que o circundam
- A utilidade estimula o homem.
- O progresso da humanidade depende do progresso da ciência.

Johann Gottlieb Fichte

Arildo Luiz Marconatto

Immanuel Kant (1724 - 1804)

Um dos principais temas da filosofia de Kant é o conhecimento, quais as possibilidades que temos de conhecer, onde começa e onde termina a nossa capacidade de conhecimento e como podemos utilizar esse conhecimento.
Kant também se preocupou em analisar as razões das ações humanas e a relação dessas ações com a moral. Ele se questionou sobre as formas como devemos agir, porque devemos fazer e o que devemos fazer, como devemos comportar-nos em nossas relações com outras pessoas, qual a forma de se alcançar a felicidade, o que é e como podemos atingir o bem supremo.
Em seu livro Crítica da Razão Pura Kant diferencia os conhecimentos que adquirimos por experiência, os conhecimentos a posteriori, dos conhecimentos que ele classifica como puros, ou a priori.
Nossos conhecimentos experimentais, a posteriori, são os que nos fornecem as sensações, por exemplo: para que tenhamos o conhecimento de que o fogo queima, temos que experimentar o seu calor. Esse conhecimento não pode ser separado das nossas impressões sensoriais.
O conhecimento a priori ou puro, não necessita da experiência sensorial para acontecer, além disso o conhecimento a priori é essencial e aplicado a tudo e a todos, por exemplo: a afirmação de que o triângulo tem três lados é uma afirmação que serve para qualquer tipo de triângulo em qualquer situação e em qualquer tempo. Eles são gerais e deles se originam discernimentos fundamentais.
Já os conhecimentos dados pela experiência, a posteriori, não produzem juízos essenciais e que possam ser aplicados em todas as situações.
Além da diferenciação entre os conhecimentos a posteriori e a priori, Kant considera ainda que existem juízos analíticos e sintéticos. Os juízos analíticos são aqueles em que os atributos fazem parte do termo sobre o qual se afirma algo. As conclusões dos juízos analíticos são o resultado do exame dos elementos contidos nos termos. Por exemplo, na afirmação “os corpos são extensos” a qualidade “extenso” já está contida de forma subentendia no termo “corpo”, ou seja, não temos condição de elabora ideias ou raciocínios sobre o termo “corpo” se não aceitarmos que eles são “extensos”.
Já os juízos sintéticos são os que associam o conceito do predicado ao conceito do sujeito e geram novos conhecimentos, por exemplo “alguns corpos se movimentam em relação a outros”. Na formulação desse juízo, os termos se complementam e desenvolvem um novo saber.
Através da diferenciação entre os juízos a priori, a posteriori, analíticos e sintéticos, Kant classifica os juízos em analíticos, sintéticos a posteriori e sintéticos a priori. Desses três o único que tem a possibilidade de criar novos conhecimentos são os juízos sintéticos a priori pois são ao mesmo tempo universais e necessários e fazem o conhecimento evoluir. Os juízos sintéticos a priori são os juízos da matemática e da física e Kant se pergunta se eles são possíveis também na metafísica.
Para responde essa questão o filósofo diz que a proporção do conhecimento dos objetos é definida pela capacidade de conhecer do sujeito, ou seja, o conhecimento vai depender da competência de experimentar e da competência de entender de cada sujeito.
Existem duas competências experimentais e de entendimento básicas que são o espaço e o tempo. O espaço é algo intrínseco à sensibilidade do sujeito que conhece e por isso ele pode perceber os objetos e relacioná-los. Nós podemos conceber um espaço sem nada, mas não podemos conceber a ausência do espaço, portanto ele é algo inerente a nós enquanto sujeitos do conhecimento. O entendimento de Kant sobre o tempo segue as mesmas argumentações. Assim, o espaço e o tempo são condições necessárias para o conhecimento.
Como consequência dessas formulações sobre o conhecimento, Kant afirma que não temos a capacidade de conhecer as coisas em si mesmas, mas somente os fenômenos decorrentes delas. Da mesma forma, não temos a propriedade de conhecer o mundo da metafísica, mas somente a capacidade de pensar um mundo no âmbito da metafísica.
Mas nossa razão não é somente teoria e conhecimento, mas também prática.  A razão vai analisar nossas ações através da moral. Para Kant uma vida moral é possível se a razão estabelecer de forma racional a forma como devemos nos conduzir. A razão tem que criar leis morais objetivas, ou seja, que valham para ser aplicadas por qualquer ser racional. Seguindo esses argumentos Kant desenvolveu o Imperativo Categórico: “Age de tal maneira que o motivo da tua ação possa ser universal”, ou seja, minha ação vai ser moral se todas as pessoas puderem agir da mesma forma.

Sentenças:
- Atreva-se a pensar.
- Com as pedras das críticas que recebes, erga um monumento.
- Com o poder vem a responsabilidade.
- Não se ensina filosofia; ensina-se a filosofar.
- É na da educação que se estrutura o aperfeiçoamento da humanidade.
- Conceitos sem intuição são vazios; intuições sem conceitos são cegas.
- Todos sabem de onde vem o ser humano, mas poucos sabem para onde vai.
- O direito deve permitir que a liberdade de cada um deixe espaço para a liberdade de todos.
- O sábio muda de opinião. O ignorante, nunca.
- A felicidade não é um objetivo da razão, mas da imaginação.
- A liberdade é a capacidade que aumenta a utilidade das outras capacidades.
- É inútil fazer pelo outro o que ele pode fazer por ele mesmo.
- Para toda tese existe uma antítese igualmente válida.
- Vemos as coisas não como elas são, mas como somos.
- Somente pela educação o homem pode ser homem.
- Somos o que a educação fez de nós.
- Sonho é poesia involuntária.
- Nos atormentamos com questões que não podemos recusar, nem resolver.
- O homem é o único animal que trabalha.

Immanuel Kant

Arildo Luiz Marconatto

Nicolau de Cusa (1401 - 1464)

Para alcançarmos a verdade de alguma coisa o caminho mais utilizado é relacionarmos algo que temos por verdadeiro com algo que temos incerto de ser verdadeiro. Esse método funciona para as coisas finitas que podem ser de fácil ou difícil entendimento. Mesmo se alguma coisa finita é de difícil compreensão, é possível conhecê-la, ainda que não no presente, mas no futuro. O mesmo não acontece com algo que for infinito, pois do infinito não temos com fazermos relações, não temos como conhecer a sua dimensão. Não pode haver simetria entre o finito e o infinito. A mente humana é finita e ignora o conhecimento do infinito. Reconhecer essa incapacidade é a Douta Ignorância, uma das principais teorias filosóficas de Nicolau de Cusa.
            Mesmo que a mente finita não possa conhecer o infinito, ela deseja ardentemente alcançar a compreensão do sem fim, do eterno. Nicolau compara o finito com um polígono e o infinito com um círculo perfeito, por mais lados que tenha o polígono ele será sempre um polígono e nunca um círculo. Nós podemos nos aproximar das verdades infinitas e eternas, mas nunca vamos alcançá-las.
            Saber que não podemos conhecer Deus é por onde começamos a conhecê-lo. A douta ignorância não fundamenta somente o conhecimento de Deus eterno e do infinito, fundamenta também todo o restante que o homem pode conhecer. Reconhecer os limites do nosso conhecimento é o ponto de partida para o nosso conhecimento da verdade.
            A mente humana é semelhante à mente divina. A mente humana através do se reconhecer limitada pode descobrir a verdadeira face de Deus. Se olharmos Deus com amor veremos que ele nos olha amorosamente, se olharmos Deus com ira veremos que ele também nos olha irado, se olharmos alegremente para Deus ele também nos mostrará seu rosto alegre. A nossa mente é uma lente que dá cor para as coisas que observamos.

Sentenças:
- O homem é um mundo perfeito e é parte de um grande mundo.
- Tudo quanto é, é porque pode ser o que é.
- Seja você e eu serei teu.
- Deus está em toda a parte e em nenhum lugar.
- A razão é a voz da inteligência e nela se espelha como uma imagem.

Nicolau de Cusa

Arildo Luiz Marconatto

Epicuro (341 - 269 a.C.)

Epicuro acreditava que a filosofia é o melhor caminho para se chegar à felicidade, que para ele significava se libertar dos desejos. A filosofia é um instrumento para alcançar a felicidade pois através dela o homem vai libertar-se do desejo que o incomoda. A filosofia com Epicuro passa a ter uma finalidade prática e não somente o objetivo de investigação dos fundamentos últimos do mundo e do homem.
            Ele divide a filosofia em três partes: a ética, a física e a canônica, sendo que as duas últimas estão intimamente ligadas.
            Em sua ética Epicuro aponta a felicidade como sendo diretamente ligada ao prazer. O prazer é o início e o fim de uma vida feliz. O homem é inclinado a buscar o prazer e a fugir da dor e através do critério do prazer é que nós avaliamos todas as outras coisas. Existem para ele duas formas de prazer, o primeiro é o prazer estável que é a ausência da dor e da perturbação, o que ele chama de ataraxia e aponia, nessa forma de prazer o homem não sofre e mantêm-se em paz podendo dessa forma atingir a felicidade. Na segunda forma de prazer, que é a da alegria e a do gozo, o homem pode tornar-se escravo do prazer e levar uma vida perturbada, o que não é condizente com a felicidade.
            Segundo a filosofia de Epicuro é preferível a sabedoria feliz do que a insensatez feliz e a justiça é somente um acordo feito entre os homens para atingirem um fim comum que é o de impedir fazerem-se o mal reciprocamente.
            Para suas idéias sobre teoria do conhecimento e sobre lógica Epicuro deu o nome de Canônica pois as duas servem como regra para expor um critério de verdade, um cânon, que é um princípio que vai direcionar o homem para a felicidade. O cânon é formado pelas sensações pelas antecipações e pelas emoções.
            O fluir dos átomos é o que produz as sensações nos homens. O fluir dos átomos é o que cria as imagens que são similares às coisas que os produzem. O fluxo dos átomos de uma árvore é o que cria em nós a imagem da árvore. Nós temos sensações dessas imagens e nossa percepção de mundo é produzida pela combinação de diversas imagens diferentes. Nossos conceitos são formulados pela repetição dessas sensações e pela recordação de sensações que vivemos no passado. As percepções do futuro também terão por base os conceitos que formulamos no presente. Essas sensações são o segundo e principal fundamento da verdade. O terceiro fundamento para Epicuro é a emoção que se constitui em nossa percepção do prazer e da dor.
            Nossas opiniões podem ser equivocadas quando não são confirmadas pela demonstração das sensações. Um bom raciocínio é aquele que está em conformidade com os fenômenos percebidos.
            Os estudos de física de Epicuro buscam rejeitar as coisas sobrenaturais como princípios de explicação do mundo. Para ele a física deve ser: 1° materialística, rejeitando como seu fundamento qualquer explicação sobrenatural e 2° mecanística, utilizando-se do movimento dos corpos como única explicação, rejeitando ainda qualquer explicação que busque uma finalidade para esses movimentos. Nada vem do nada, todo corpo é formado por corpúsculos menores e indivisíveis que são os átomos e os átomos se movimentam no vazio infinito. Nesse vazio os átomos colidem uns contra os outros podendo criar entre si as mais variadas combinações. O número dos átomos não é infinito, mas também não pode ser definido.
A alma é formada por partículas corpóreas que estão espalhadas por todo corpo. Essas partículas são mais tênues e delicadas e se movimentam de forma mais fácil que as outras pois são mais redondas. Com a morte os átomos da alma se separam e nós não podemos mais ter as sensações. A morte é o fim tanto do corpo quanto da alma e por essa razão nós não precisamos ter medo dos deuses

Sentenças:
- As almas pequenas na sorte se desenvolvem, nas adversidades regridem.
- O homem sereno busca serenidade para si e para os outros.
- A morte não é nada para nós. Quando nos dissolvemos não temos mais sensibilidade e sem sensibilidade não nos resta nada.
- A vida do justo não é perturbada pelas inquietações, mas a vida do injusto é cheia delas.
- Toda amizade tem por base o proveito próprio.
- As pessoas terminam sua vida como se tivessem acabado de nascer.
- Não faça nada que teu vizinho não possa saber.
- Não devemos pedir aos deuses o que podemos realizar.
- O melhor da auto-suficiência é a liberdade.
- A morte não significa nada para nós pois quando nós somos ela não é e quando ela é, nós não somos.
- Nada é suficiente para quem considera o suficiente pouco.
- O prazer é o principal bem, ele é a ausência de dor no corpo e de inquietações na alma.

Epicuro

Arildo Luiz Marconatto

Jean-Jacques Rousseau (1712 - 1778)

Em grande parte de sua filosofia Rousseau propõe que o homem deve fazer um caminho de retorno à natureza, mas não um retorno ao seu primitivismo animal e rude, mas um retorno ao seu Estado Natural, que é o saber viver originário e feliz conforme nossas necessidades inatas. Essas necessidades inatas foram corrompidas pela civilização, pelo intelectualismo e pelos comportamentos artificiais que a sociedade impõe aos indivíduos. As produções da arte e da cultura fazem com que esqueçamos nossos reais deveres enquanto seres humanos e descuidemos das nossas necessidades naturais inerentes. Os refinamentos sociais, as mentiras convenientes e aceitas pela comunidade, o exibicionismo intelectual, a suntuosidade cultural e a vaidosa busca pela estima e simpatia das outras pessoas, são abusos que fazem com que percamos nossa capacidade de reconhecer e julgar valores humanos mais profundos, como a virtude.
O homem natural busca simplesmente satisfazer suas necessidades como sexo, alimentação e autopreservação sem se angustiar frente à morte. Quando age de forma agressiva, não o faz de forma desnecessária ou com crueldade, pois tem em si um sentimento natural de piedade para com os outros seres da natureza. Esse homem tem a capacidade de tomar as próprias decisões seguindo o próprio discernimento e a habilidade de buscar a perfeição.
O homem natural atinge a plenitude de suas capacidades quando passa a viver em pequenos grupos familiares e em pequenas comunidades, mas começa a se degenerar, a perder as suas características originais, quando alguns dentre eles criam a propriedade privada, e outros acreditam nela.
Para Rousseau, retornar à natureza não significa destruir a sociedade, pois a sociedade permite o nosso desenvolvimento mais rápido e amplia as nossas perspectivas intelectuais. Retornar à natureza significa ir em busca dos princípios mais profundos da nossa humanidade.
A razão faz o homem sair de si mesmo, mas os sentimentos faz com que ele conheça a sua interioridade, a sua essência e a sua consciência natural. Nessa interioridade é que a natureza se revela pois ela está dentro de nós como um essencial senso vital.
O homem é naturalmente bom, para evitarmos que ele se torne mau e possibilitarmos o desenvolvimento das suas potencialidades naturais temos que usar a educação. A educação para Rousseau é um processo gradativo e tem que se adequar às necessidades do desenvolvimento humano de cada indivíduo. Primeiro temos que desenvolver e aperfeiçoar os sentidos das crianças, pois inicialmente elas têm necessidades físicas. Nessa fase os ensinamentos devem ser feitos por meio da interação com os objetos. Dessa forma a criança torna-se autossuficiente, livre e sem necessidade de artificialidades. Nesse estágio não se deve estimular a imaginação na criança, pois isso trará angústias quanto ao futuro e consequentemente à infelicidade dela.
O segundo passo na educação somente pode ser dado quando o indivíduo tomar consciência de como são as suas relações com os seus semelhantes, a partir de então podemos trabalhar com pedagogia e passar a ensinar como funciona a sociedade e sua organização científica, cultural e política.
Outro conceito importante para Rousseau é o de liberdade que pode ser entendido ao mesmo tempo como um direito e um dever, pois nascemos livres e a liberdade nos pertence, quem renuncia à liberdade renuncia a sua condição humana. A liberdade é um direito que não podemos transferir para outra pessoa, nem podemos tomar de outrem a sua liberdade. A liberdade assim vista é um valor humano fundamental e incontestável. É na liberdade que a humanidade se revela universal. É na liberdade que eu amo a mim mesmo e a humanidade, é na liberdade que vou distinguir as características da minha vontade individual e identificá-la com a vontade geral da humanidade. É dessa forma que um cidadão pode identificar-se com outro e se perceberem participantes de uma mesma pátria, fugindo assim do individualismo.
Quando o indivíduo identifica a sua vontade com a vontade de sua pátria passa a existir um Contrato Social, que é quando esses indivíduos se unem de forma livre para formarem uma sociedade, à qual prestam obediência com consideração e respeito.
Sentenças:
- Dinheiro que possuímos é instrumento de liberdade, dinheiro que perseguimos é instrumento de escravidão.
- O primeiro homem que disse Isso é meu, fundou a sociedade.
- Não vivemos para viver, mas para fazer parecer que vivemos.
- Viver não é respirar, é agir.
- Quanto mais crimes, maior a decadência de uma sociedade.
- Uns precisam de assas, outros de correntes.
- O cultivo endireita as plantas, a educação endireita os homens.
- A consciência é o instinto divino.
- O homem é naturalmente bom, a sociedade o corrompe.
- A juventude deve estudar a sabedoria, a velhice praticá-la.
- A paciência é amarga, mas seu fruto é doce.
- O único comportamento que devemos ensinar às crianças é que nunca se submetam a nenhum.
- A injúria é a razão de quem tem culpa.
- Um bom pai vale por cem professores.
- A fé é uma questão de geografia.
- O homem nasce livre, e em todo lugar é posto a ferros.
- A única instituição natural é a Família.
Jean-Jacques Rousseau

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

Montesquieu - Charles-Louis de Secondat (1689 - 1755)

Em seu principal texto filosófico, o livro Do Espírito das Leis, o filósofo tenta esclarecer o que é necessário e indispensável na relação lógica entre as diferentes instituições políticas e sociais que as leis fundamentam. Ele é, assim, um dos primeiros sociólogos e cientista político a tentar descobrir as conexões existentes entre as leis e a realidade social de cada grupo humano. Uma das suas principais contribuições nesses estudos é a distinção e divisão de poderes dentro de um estado entre o Legislativo, o Executivo e o Judiciário, que segundo ele é a base de qualquer república. Mesmo que em suas obras o Poder Judiciário não é tido como realmente um Poder, já é um avanço ele constar o judiciário como um instrumento importante na relação de divisões de poderes dentro de um estado.
A ideia geral é o poder limitando o poder, ou seja, o poder legislativo, que ele divide em dois, limitando o poder executivo através das leis. O executivo vai exercer pressão sobre o Legislativo para que esse formule leis que o beneficiem e o Legislativo vai exercer pressão sobre o executivo para que esse, em tese, defenda os interesses do povo, de quem o legislativo é representante, ao menos em parte.
Ele busca inserir o método experimental no estudo das ciências humanas, ou seja, procura trazer cientificidade para o estudo das leis e regras do direito, da religião e da política. Por exemplo, ele diz que diversas variantes governam os homens, como os climas, as religiões, a história, as leis, os costumes. E a junção de todos esses fatores forma um conjunto de atributos que caracterizam os seres humanos e que formam seus espíritos, um espírito geral, um Espírito das Leis.
Os estudos segundo os princípios científicos podem beneficiar os homens em diversos aspectos: A Satisfação Pessoal que cada um de nós tem ao saber cada vez mais sobre algo; Superar o Desejo de conhecimento que é próprio dos seres humanos; Perceber que a pesquisa e a inovação nos trazem cada vez mais esperança em encontrar soluções para todos os tipos de problemas que nossa sociedade enfrenta; Encontrar algo que traga felicidade durante toda existência humana e não somente em um período dela; e finalmente Contribuir Socialmente com o nosso conhecimento, ou seja, os nossos estudos podem trazer inovações que vão beneficiar toda a sociedade por um curto ou longo período histórico, para Montesquieu, traz realização humana saber que através de nossos estudos podemos fazer com que as próximas gerações sofram menos e saibam mais do que nós. É uma contribuição social para a felicidade geral.
Montesquieu critica duramente as religiões por sua intolerância ao diferente e pela busca de novos discípulos, diz que as religiões dominantes tendem a se fechar nos próprios dogmas e que esses dogmas desfiguram ou ocultam a capacidade humana de raciocinar.
Sobre Filosofia Política divide os governos em republicanos, monárquicos e despóticos. Na República o povo, ou ao menos parte dele é detentor do poder; na Monarquia um só é o governador, mas ele tem que seguir regras estáveis, ou seja, leis que tenham duração; no Despotismo, um só também governa, mas sem leis e sem regras que limitem o seu poder, a lei é a vontade do governador déspota.
Eticamente ele distingue esses governos como a virtude sendo o fundamento da república, a honra o fundamento da monarquia e o medo o fundamento do despotismo.
Para Montesquieu a liberdade não é fazermos o que queremos, mas escolher fazer entre todas as coisas que a lei permite que façamos. Nesse sentido, não é a lei que limita a liberdade, ao contrário, é a lei que garante a liberdade de fazermos tudo o que elas nos permite.
SENTENÇAS:
- Nunca houve tantas guerras civis como no reino cristão.
- Os parentescos se formam também pelas ligações de coração e de inteligência.
- Na democracia o amor é a igualdade.
- As leis inúteis enfraquecem as leis necessárias.
- Os grandes espíritos são ingênuos.
- A riqueza da igreja tem origem em princípios de pobreza.
- Para se dar bem você tem que ser inteligente, mas parecer louco.
- A covardia é a mãe da crueldade
- Quando impomos um castigo não corrigimos, mas vingamos.
- Um bom governo é aquele onde ninguém tem medo de ninguém.
- Quem menos pensa, mais fala.
- Amizade é fazer pequenos favores para que os amigos nos façam favores grandes.
- A lei deve ser como a morte, que é para todos.
- A palavra é metade de quem fala e metade de quem ouve.
- Sábio é quem consegue ser feliz continuamente.
- A injustiça a uma pessoa é uma ameaça a todas as outras.
- A verdade de hoje é a falsidade de amanhã.
- É mais fácil fazer coisas grandes do que coisas boas.
- Cansamos das mudanças de uma mulher bonita, mas não de uma mulher bondosa.
- Não basta ser feliz, temos que ser mais feliz que os outros.
- Sou homem necessariamente, e francês por acaso.
- A tentação do poder é abusar dele.
- A ignorância é a mãe das tradições.
- Se os triângulos tivessem um deus, ele teria três lados.
- Entre quem prova ter ouro e quem prova fabricar ouro, fico com o segundo.
Montesquieu - Charles-Louis de Secondat

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

Voltaire - François-Marie Arouet (1694 - 1778)

Voltaire é um dos grandes nomes do Iluminismo e seus escritos se caracterizam pela ironia, vivacidade e polêmica, especialmente contra as injustiças e a superstição. É um filósofo deísta, ou seja, admite a existência de Deus, mas nega a qualquer igreja o direito de ser o seu representante. Defende o que ele chama de religião natural e vê Deus como um ser distante do mundo, responsável somente pela sua criação e que não interfere na história dos homens. Além disso, é considerado como cético, laico e anticlerical.
Em seu pensamento político Voltaire não acreditava que as nações de sua época estivessem prontas para se tornarem democráticas e também não defendia a república, pois pensava que o povo não estava pronto para assumir esses dois modos de governo. Não via com bons olhos a oligarquia e defendia uma monarquia absoluta esclarecida
Em algumas de suas obras defende a liberdade política e critica a intolerância religiosa, tendo por mote a igualdade, justiça e tolerância.
Foi contra a tortura, a pena de morte, a vivisseção e a crueldade imposta aos animais de criação, tinha ainda simpatia pelo vegetarianismo.
Os homens selvagens são livres e os civilizados tem que ser tratados com igualdade pela lei, pois muitas vezes são escravos da guerra e da injustiça.
Economicamente defende os primórdios do pensamento liberal.
Em suas viagens pela Holanda e Inglaterra ficou admirado com a tolerância religiosa, a liberdade de expressão de novas ideias políticas, científicas e filosóficas difundida nesses países. Se impressiona também com as novas descobertas científicas de Newton e o empirismo de Locke. Desses dois autores ele tira sua defesa da pesquisa científica baseada na experimentação e na busca de leis comuns que explicassem os mais diversos fenômenos naturais. Seguidor do empirismo, Voltaire defende a pesquisa científica sem a obediência e a dependência das verdades religiosas.
Voltaire acredita na existência de Deus e diz que se existe um relógio é porque existe também um relojoeiro, ou seja, a prova da existência de Deus está na organização e na disposição do universo, se existe uma obra é porque existe o artesão, o idealizador e construtor dessa obra, esse artesão é Deus, criador desse universo. Segundo ele, se Deus não existisse teríamos que inventá-lo, pois toda natureza grita que ele existe. O Deus de Voltaire é o grande arquiteto dessa máquina de funcionamento perfeito que é o universo. O Deus de Voltaire não divide as pessoas nem é a causa da intolerância, é um Deus universal, da mesma forma que a razão é comum a todos os homens. Crer em Deus é acreditar em algo evidente, mas a evidência da existência de Deus é possibilitada pela razão e não pela fé. Deus fez o universo, mas não intervêm mais nele, e, portanto o homem é um ser livre.
O filósofo critica os textos bíblicos e coloca em dúvida a sua fundamentação histórica e a legitimidade moral de boa parte deles.
Foram grandes as críticas de Voltaire à Igreja Católica que ele considera infame, supersticiosa, ridícula, absurda, suja de sangue e responsável pelo fanatismo e pela intolerância religiosa. Em substituição à Igreja Católica ele defende uma religião natural baseada em uma moral natural, tolerante e que busca unir os homens espiritualmente respeitando as diferenças culturais.
Por outro lado Voltaire é também contrário ao materialismo, ao espiritualismo e ao ateísmo. Considera esse último destruidor das virtudes humanas, diz que para uma sociedade é melhor ter uma religião falsa do que não ter nenhuma. Critica ainda o Islã, também pelo seu fanatismo.
Para ele a filosofia é o espírito crítico que vai contrapor a tradição para poder diferenciar o que verdadeiro do que é falso.

Sentenças:
- Deus me proteja dos amigos. Dos inimigos me protejo eu.
- Casamento é a aventura dos covardes.
- A dúvida é desagradável e a certeza é absurda.
- Acreditar em milagres é desonrar a divindade.
- A teologia dá respostas incompreensíveis para perguntas sem sentido.
- A religião existe desde quando o primeiro hipócrita encontrou o primeiro imbecil.
- Somente os imbecis tem certeza do que dizem.
- O dinheiro é a religião de todos.
- Para aborrecer, diga tudo.
- A paixão é o vento que move o navio. Sem ela ninguém navega.
- A mentira é um vício quando faz mal e uma virtude quando faz bem.
- Buscar a felicidade é como estar embriagado e não encontrar a própria casa.
- A amizade é um casamento de almas, mas podem separar-se.
- Somos culpados pelo bem que não fizemos.

Voltaire - François-Marie Arouet
 
Responsável: Arildo Luiz Marconatto

Claude-Adrien Helvétius (1715 - 1771)

Em vários pontos dos escritos de Helvétius aparece a sua preocupação com o encontrar uma melhor forma para que os homens sejam felizes, para desenvolver seus estudos o autor utiliza basicamente o empirismo e faz do ambiente onde vivem as pessoas a principal influência para o comportamento das mesmas. 
O ambiente onde vivemos imprime em nosso espírito, através das sensações, as suas peculiaridades e essas sensações formam nossas ideias, juízos, emoções e nossa memória. 
Existem três tipos de ideias: As úteis, que tem a capacidade de educar ou divertir; As prejudiciais, que produzem efeitos negativos; E as indiferentes que são pouco agradáveis mas que a elas nos acostumamos por hábito e que produzem poucos efeitos. 
Na psicologia de Hélvétius, a educação e o ambiente onde vivemos é que formatam os nossos valores e as nossas motivações. Os caracteres hereditários são iguais em todas as pessoas normais e pouco influenciam no resultado final do comportamento humano, não existem portanto ideias inatas, as nossas ideias são adquiridas da educação e da convivência. 
Todas as pessoas nascem com as mesmas capacidades, o que vai diferenciar uma das outras são os conjuntos de ações e métodos do sistema de educação a que essas pessoas estão expostas. O meio em que as pessoas vivem é o que determina as qualidades e os defeitos delas. Todos nós podemos ser tolos ou gênios dependendo somente de certa ordem de acontecimentos que muitas vezes são imprevistos. 
As diferenças individuais são também causadas pelos diferentes graus de interesse e motivação que o sistema educacional consegue despertar nos indivíduos e esses interesses estão diretamente relacionados à emoção que se consegue despertar nas pessoas. 
Nossos comportamentos são uma tabula rasa onde podem ser impressos qualquer tipo de conduta humana, nossos comportamentos são, portanto modeláveis e adaptáveis. Os indivíduos podem ser modificados e educados para cumprirem a sua função de serem úteis para a coletividade, para a felicidade da maioria, e os filósofos tem um papel fundamental no desenvolvimento dos processos educacionais desses indivíduos. 
Helvétius condena a educação que tenta colocar nos indivíduos valores morais através da condenação dos prazeres. Os filósofos tem o papel de encontrar modelos educacionais e de legislação que sejam compatíveis com os prazeres individuais e com a felicidade da comunidade. 
O filósofo Helvétius identifica os dois principais inimigos dessa forma de educação e legislação, que são a religião cristã e o sistema feudal francês de sua época. O cristianismo por causa dos seus dogmas ilógicos e insensatos que condenam os prazeres e o feudalismo por perpetuar e promover a injustiça econômica e social. Para Helvétius crer em Deus não é algo positivo para os seres humanos e causa dano moral e intelectual para a felicidade da sociedade.

Sentenças: 
- O poder dos sacerdotes depende da superstição do povo. 
- O primeiro propósito dos sacerdotes é reprimir a curiosidade dos homens. 
- Os homens vêm ao mundo ignorantes, mas não estúpidos. 
- A ilusão é um efeito necessário da paixão. 
- A mente é a união das nossas ideias. 
- A propriedade é o deus mortal dos impérios. 
- O espírito não é dado, mas conquistado. 
- Nós só vivemos o tempo que amamos. 
- O emburrecimento nos torna superior aos animais. 
- Todos os homens têm uma disposição igual para o entendimento. 
- Aniquilando os desejos, aniquilamos a mente. 
- O homem sem paixões não tem motivo para agir. 
Claude-Adrien Helvétius

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

Étienne Bonnot de Condillac (1715 - 1780)

Condillac desenvolveu uma teoria do conhecimento baseada no empirismo onde as sensações são o principal instrumento que nos permitem conhecer. Este filósofo formulou os fundamentos da teoria do conhecimento na época do iluminismo.
Para ele, entendermos o complexo sistema de conhecimento exige que estudemos nossos sentidos de forma separada, somente dessa forma vamos conseguir perceber quais sentidos originam quais ideias. É preciso ainda analisar a forma como exercitamos cada um dos nossos sentidos e como cada um deles ajuda, assessora e socorre os outros.
O resultado dessas pesquisas nos mostraria que a nossa consciência e os pensamentos que a formam é o resultado puro e elementar da alteração das nossas sensações mais básicas.
Para tornar sua teoria mais visual, Condillac desenvolve o exercício imaginativo de representação de uma estátua como se fosse um ser humano sem nenhum dos sentidos, primeiro se dá a essa estátua o sentido do olfato, que é o mais fraco dos nossos sentidos, ao sentir os primeiros cheiros eles despertariam total atenção da estátua e os diversos cheiros sentidos por ela seriam classificados entre bons ou ruins, entre os que causam prazer ou dor. Os odores seriam o único parâmetro para a organização dos pensamentos dessa estátua, que passariam a surgir tendo por único padrão o olfato.
Para auxiliar suas operações mentais a estátua desenvolveria a memória que é a consequência da maior ou menor atenção que essa estátua der à sua sensação olfativa.
Após memorizar algumas sensações o passo seguinte seria comparar uma sensação com a outra, dessa comparação entre duas ou mais memórias de sensações surgiriam os primeiros juízos. Nossa mente vai guardando e acumulando esses juízos de forma regular e esses juízos conservados seriam a base das relações de ideias.
Comparando as sensações através da memória e dos juízos dessas memórias a nossa estátua já teria a condição de desenvolver seus primeiros desejos e esses conduziriam, definiriam e animariam a memória e a fantasia, de onde nascem as paixões.
Os outros sentidos agiriam na estátua de forma semelhante, mas cada um com suas especificidades e quando essa estátua tiver todos os sentidos desenvolvidos e analisados podemos ter uma visão mais completa de como conhecemos.
Assim sendo não existe diferença entre sentir e refletir e as nossas sensações são o que definem a evolução do nosso funcionamento mental.
Em metafísica Condillac distingue duas espécies: uma audaciosa que quer compreender todos os mistérios como os da natureza, da essência dos seres e todos os princípios mais desconhecidos; e uma mais moderada e sóbria que busca entender as fragilidades e profundezas da alma humana.
Sobre a alma humana Condillac assegura que ela é separada e diferente do corpo e que o corpo é a causa da formação e mudanças ocorridas na alma.
A linguagem é, segundo Condillac, a nossa mais desenvolvida capacidade cognitiva. A linguagem é o elo entre as nossas mais diferentes sensações pois os signos e símbolos que representam as sensações, quando se ligam entre si formam a linguagem. A linguagem são os símbolos e signos organizados de forma mais ou menos lógica e é através da linguagem que concretizamos de vez o conhecimento.
Uma ciência perfeita exigiria uma linguagem perfeita, e quanto mais da perfeição se aproximar a linguagem das ciências, mais perfeita e verdadeira será essa ciência. Mas para que a linguagem da ciência seja perfeita temos que eliminar dela toda ambiguidade, em ciência não podem existir segundas interpretações e cada ciência tem que ter uma linguagem própria pois cada ciência tem os seus métodos e objetos de pesquisa próprios. A linguagem matemática é um bom exemplo de linguagem científica, que tem ainda que ser simples, formal, exata e tem que encontrar referencial na realidade.

Sentenças:
- Todos os nossos conhecimentos vem dos sentidos.
- Mesmo o menor passo é difícil em filosofia.
- A razão é o conhecimento de como dirigir as atividades da nossa alma.
- Aprovamos nosso comportamento com tanta certeza como que criticamos o dos outros.
- Muitas vezes o filósofo fala da verdade sem a conhecer.

Étienne Bonnot de Condillac

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

Denis Diderot (1713 - 1784)

Como outros pensadores iluministas Diderot acredita na razão pois é ela que tem a capacidade de duvidar das verdades estabelecidas. A filosofia, utilizando-se da razão, deve analisar os fatos e deles tirar verdadeiros conhecimentos, mesmo as verdades racionais da matemática devem tentar entender os fatos reais e explicar as experiências humanas.
Denis compara o mundo a um grande animal e coloca Deus como sendo a alma deste animal, diz que Deus é como uma aranha e o mundo é a teia por ele fabricado, e que é através dessa teia que Deus sente os movimentos do mundo, mas com uma certa distância. Esse mundo nasce e morre a todo momento em um movimento que não tem fim, o mundo está portanto continuamente no começo e no fim de si mesmo. Segundo suas palavras: "...tudo que existe se relaciona através da ação e da reação, tudo se destrói de uma forma para se reconstruir depois de uma forma diferente".
Diderot conclui ainda que o mundo é feito de diversos elementos de natureza diferente e que existem inúmeros desses elementos e cada um deles se distingue do outro por possuir uma força e um movimento próprio que não pode ser destruído, não tem fim, não muda e é inerente ao elemento.
Ainda sobre a relação entre Deus e o mundo Diderot afirma que o mundo não pode mais ser visto como um Deus, mas como uma enorme maquina que funciona com rodas, cordas, roldanas, pesos e molas. Essa máquina foi criada por uma inteligência superior e livre de defeito, que é Deus.
Grande polêmica em sua época foi a crítica que fez às religiões dizendo que elas tentam extinguir as paixões. É loucura uma pessoa tentar destruir suas paixões através da fé, tentar acabar com os desejos, com o amor e com os outros sentimentos é deixar de ser humano e se transformar em um monstro. Um ser humano equilibrado moralmente é um ser humano que tem suas paixões em harmonia e não um homem que não tem paixões.
São as grandes paixões que fazem os homens fazerem grandes coisas, grandes paixões produzem grandes homens, paixões modestas produzem homens comuns e um homem sem paixões é um homem medíocre. Reprimir as paixões pode destruir um ser humano com grandes capacidades.
Em suas crítica às religiões diz ainda que o milagre é um absurdo contra a natureza, duvida dos milagres de Cristo e diz que não acredita que um homem possa ressuscitar. Não acredita na sacralidade da Bíblia nem na infalibilidade da igreja, pois quem estabelece a divindade das escrituras é a igreja e a igreja obtêm seus fundamentos nessa mesma escritura. Para Diderot pensar que Deus não existe causa muito menos terror do que pensar que existe um Deus punitivo que quer controlar as paixões humanas.
Em seus escritos sobre estética Diderot apresenta a ideia de que a beleza é uma necessidade natural do ser humano, o belo inicialmente aparece no homem através da simetria e da ordem e a partir delas se desenvolve para outros ramos e outros aspectos. Essa necessidade de beleza nasce das experiências que os homens têm em sua vida e mesmo que Deus não existisse ela existiria.
A beleza é determinada pela relação que temos com os objetos e conforme relacionamos os objetos entre si, é essa relação que vai definir a beleza na música, na literatura, na moral, na natureza e na arte.

Sentenças:
- Podem exigir que eu busque a verdade, mas não que a encontre.
- Nenhum homem recebeu da natureza o direito de comandar os outros.
- O perigo está nas palavras, por isso me calo.
- Poetas, profetas e lentes servem para ver moscas como se fossem elefantes.
- Alguns morrem na escuridão porque não tiveram um teatro onde se apresentar.
- A natureza é um colosso com pés de argila.
- Os bons vivem em sociedade, os maus sozinhos.
- O poder conquistado com violência é usurpação.
- Uma hipótese não é um fato.
- Do fanatismo à barbárie a distância é só um passo.
- O filósofo nunca matou um sacerdote, mas o sacerdote matou muitos filósofos.
- O primeiro passo para ser filósofo é ser incrédulo.
- O trabalho encurta os dia e prolonga a vida.
- Engolimos de uma vez a mentira que nos adula e gota a gota a verdade que nos critica.
- Os médicos trabalham para conservar a saúde e os cozinheiros para destruí-la.
- É idiotice acreditar que algo é melhor porque tem mais clientes.
- A paixão destrói mais preconceitos do que a filosofia.
- A sabedoria é a ciência da felicidade.
- Se não duvidarmos de algo não podemos prová-lo.

Denis Diderot

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

dAlembert (1717 - 1783)

Jean Baptiste dAlembert acreditava que nossa razão não deve se separar dos acontecimentos. A ciência e a filosofia devem se ater aos fatos e às conclusões que deles podemos tirar, um argumento que não for deduzido dos eventos a que se relaciona não é um argumento válido.
Pensava ainda que existem dois tipos de conhecimento, os diretos e os reflexos. Os conhecimentos diretos são o resultado imediato das nossas sensações e os conhecimentos reflexos são o resultado do nosso processo de entendimento racional dos conhecimentos diretos. A nossa consciência, ao refletir sobre nossas experiências através de combinações e uniões cria as ideias, que são, portanto resultado direto da razão.
Nosso conhecimento tem origem nas ideias, que por sua vez se originam das sensações e isso é constatado pela nossa experiência de vida. Essas sensações fundamentam também as ciências, que na física chamamos de fenômeno, na geometria extensão, na mecânica ação e a reação. A filosofia deve também seguir os fatos e abandonar de vez as concepções abstratas, se a filosofia não tomar por base os fatos ela se torna uma mera ilusão. Uma filosofia que busca ainda fundamentar um sistema é uma filosofia obsoleta.
A filosofia tem que admirar nos filósofos antigos o mesmo que pode ser admirado nos filósofos modernos. Os filósofos que buscam argumentos em hipóteses metafísicas perdem seu tempo.
Sobre a religião dAlembert é deísta, ou seja, admite a existência de Deus mas nega a prerrogativa de que as igreja O representam. Foi Deus que criou o universo utilizando leis imutáveis e nós poderemos compreender melhor a existência divina utilizando a razão para entender suas leis.
A religião não é o fundamento da moral, pois a moral aparece no mundo quando são criadas as sociedades e não quando são concebidas as religiões. A moral surge quando percebemos que temos deveres com os nossos semelhantes e isso acontece quando passamos a viver em sociedade.
Vivemos em sociedade porque temos a necessidade de nos comunicar, temos a necessidade de demonstrar e difundir nossas ideias e essa necessidade surgiu quando criamos a linguagem. A moral é um resultado da vivência social que foi possibilitada pelo surgimento da linguagem, as religiões surgem depois.
Existem três modos de pensamento: A memória, que é onde guardamos os conhecimentos, a razão que é a reflexão sobre os conhecimentos e a imaginação que trabalha com a imitação e criação desses conhecimentos. A memória fundamenta a história, a razão fundamenta a filosofia e a imaginação é o fundamento da arte.

Sentenças:
- A guerra é a arte de destruir e a política de enganar os homens.
- Mais afortunado é o mendigo são do que o rei doente.
- Nada é mais incontestável do que a existência das nossas sensações.
- As grandes coisas são produzidas pela liberdade de pensar e agir.
Jean Baptiste dAlembert

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

Giambattista Vico (1668 - 1744)

Vico é um crítico da filosofia de Descartes e se diferencia dos pensadores iluministas por refletir sobre a religião e a política de forma conservadora tendo por base as teorias do passado e utilizando uma linguagem essencialmente teológica.
A história para Vico é um fluxo evolutivo de acontecimentos que nos leva a uma razão esclarecida, mas para ele existem verdades humanas que não podem ser demonstradas através das evidências racionais como as verdades da história, da poesia, da pedagogia da medicina, do direito, da política, da arte e da moral.
O método racional geométrico cartesiano não nos garante a verdade dos nossos conhecimentos sobre as coisas humanas; a razão e a geometria funcionam muito bem com os números e grandezas mas não tem a capacidade de abranger e explicar as outras matérias, especialmente as humanas. O conhecimento e o entendimento sem defeitos é uma característica de Deus, a nós humanos resta um pensar limitado que vamos reunindo conhecendo algumas características dos objetos que percebemos. Nós e Deus conhecemos as coisas que fazemos, como Deus criou o objeto real ele tem o real conhecimento de tudo, nós conhecemos e criamos objetos ilusórios como a matemática que podemos entender verdadeiramente pois ela é o resultado de uma operação intelectual humana. Para Deus fazer e conhecer são a mesma coisa, para os homens não.
Vico considera que Descartes errou ao acreditar que a matemática, uma criação humana, poderá entender o restante do universo que é uma criação divina. A razão é a consciência do ser, mas não o conhecimento dele. A razão humana não é a causa da existência do homem, não foi a razão que criou o meu corpo, portanto não é ela que vai entendê-lo. A razão também não é a causa da minha mente pois a nossa reflexão é um vestígio, um recurso utilizado pela mente para tentar conhecer, mas não é a totalidade da nossa mente. O pensar nos dá o conhecimento da nossa existência, mas não nos garante o conhecimento total de quem realmente somos.
Giambattista diz que os filósofos e historiadores de sua época estavam fazendo da história uma invenção, uma ilusão criada para exaltar nações ou determinados personagens históricos. A história como exaltação de fatos ou personalidade não representa os princípios fundamentais do homem e da história, que é uma criação do homem. A história tem que ter uma ligação real como o homem, caso contrário ela não se sustenta nem cria tradição.
O homem é o personagem principal da história porque é originalmente um ser sociável e ao se sociabilizar ele cria a história. Além de ser um animal sociável o homem é livre e por isso a história da humanidade é o resultado das escolhas dos homens de cada época. Segundo as palavras de Vico “Enquanto animal o homem pensa somente em sua sobrevivência, mas quando cria família, tem mulher e filhos, ele busca sobreviver junto com sua cidade”.
Seguindo um pensamento de Platão, Vico divide a história em três períodos: dos deuses, dos heróis e dos homens, no primeiro os homens eram ignorantes, insensatos e prevalecia a animalidade, nessa época os homens pouco ou nada usam a reflexão, estão mais ligados aos sentidos. Na época dos heróis prevalece a fantasia, a imaginação, é um período onde a força é a base da estruturação social. No período dos homens o que se destaca é a razão, nessa época os homens atingem a consciência crítica e a sabedoria.
A história é o resultado também das ações divinas mas não de forma direta, para Vico a providência divina criou ideais a serem alcançados pelos homens. Ideais como justiça, verdade e o bem são objetivos que o homem tenta alcançar e tenta fazer isso de maneira livre.
No estudo da linguagem, Vico acredita que o modo de falar popular testemunha com mais veracidade os costumes de um povo. Os sistemas de comunicação que perduram em uma determinada língua são a expressão mais fiel da vida dessas pessoas, razão pela qual não é possível entender uma sem compreender a outra.

Sentenças:
- A fantasia é mais forte quanto mais fraco for o raciocínio.
- O governo segue a natureza dos governantes.
- A poesia dá senso ao insensato.
- A ordem das ideias deve seguir a ordem das coisas.
- A fantasia é a memória dilatada.
Giambattista Vico

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

Blaise Pascal (1623 - 1662)

A razão não é suficiente a si mesma, ela tem limites, e Pascal reconhece esses limites. Estabelece que a ética, a vida social e a religião é que definem o mundo humano real e esse mundo real em grande parte foge das possibilidades da razão.
Mas mesmo no mundo natural a razão é limitada, pois os segredos da natureza estão encobertos na experiência que constantemente aumenta em quantidade, intensidade e valor. Uma hipótese que busca explicar um acontecimento na natureza pode ser validada, negada ou permanecer duvidosa, e a experiência permanecendo duvidosa demonstra claramente que a razão tem seus limites. A razão também demonstra ser limitada quando busca definir as noções fundamentais de uma área do conhecimento pois ela não consegue definir os princípios últimos da própria razão.
Pascal demonstrou grande preocupação com as questões teológicas de sua época, defendia que as ações humanas não são suficientes para a salvação dos indivíduos, para que as pessoas se salvem é necessária a interferência, o auxílio de Deus, a salvação dessa forma se torna mais difícil e não é o resultado direto das ações humanas. São nas nossas ações que vão aparecer o livre arbítrio e no livre arbítrio aparece a ação de Deus pois foi ele que nos concedeu a liberdade de escolher nossos atos.
É também teológica a preocupação de Pascal quando define que as verdades estabelecidas pelos filósofos e teólogos antigos deve ter o mesmo valor das novas teorias, o que é necessário ser feito é a diferenciação de que em determinadas áreas os pensamentos antigos tem supremacia, mas em outras devemos levar em conta os argumentos contemporâneos. Em teologia o peso dos escritos antigos é definitivo para se descobrir a verdade, e a razão não tem muito a dizer sobre eles, ou seja, os fundamentos da fé estão acima da natureza e da razão. Mas sobre a interpretação e a capacidade de conhecimento das experiências naturais, é a razão que tem a supremacia. É dessa forma que a inteligência e o conhecimento humano tem a capacidade de se ampliar sem interrupções.
O conhecimento científico é independente dos conhecimentos da fé que são imutáveis, a fé nos faz dizer creio, e a ciência, sei. O conhecimento científico para ter credibilidade tem que estar baseado em um método, mas nenhum método é capaz de nos dar uma verdade científica completa.
Pascal acreditava que uma das prioridades do nosso pensamento é pensar a nós próprios e não somente as coisas exteriores a nós. A tarefa principal do homem é conhecer a si mesmo, mas para cumprir esse empreendimento a razão não nos pode ajudar muito, pois ela é fraca, desnecessária e imprecisa e cai constantemente na fantasia, no sentimentalismo e no hábito. Para conhecer-nos o melhor caminho é o do coração.
Nós fazemos parte da natureza e nos localizamos entre dois infinitos dela, o infinitamente pequeno e o infinitamente grande e somos incapazes de entender ambos. Somos ainda impossibilitados de entender o nada de onde viemos e entender o infinito onde estamos imersos. Nós somos alguma coisa, mas não tudo. Nós conhecemos algumas coisas, mas nunca conheceremos tudo, pois os nossos sentidos não percebem as coisas extremas. Nós estamos situados entre o ser e o nada.
Além de limitados somos também impotentes diante das misérias humanas como a morte e a ignorância, para fugir dessas impotências muitos escolhem o não pensar e o não pensar para Pascal é o divertimento. Divertir-se é uma forma de distrair-se com ocupações que nos distanciam das misérias que vivemos. Quando não tivermos nada para fazer sentiremos as nossas misérias, o divertimento é o fazer algo que vai distanciar nossa alma do vazio e do tédio. A diversão é uma fuga de nós mesmos.
Mas mesmo limitados somos os únicos seres pensantes da natureza. Somos também um dos seres mais fracos da natureza, mas somos fracos pensantes e é no pensamento que está nossa dignidade, nossa nobreza e superioridade frente à natureza. Nós somos miseráveis e mortais, mas sabermos que somos miseráveis e mortais e nisso está nossa grandeza.

Sentenças:
- É mais fácil suportar a morte sem pensar nela.
- Rir da filosofia é o verdadeiro filosofar.
- É melhor saber um pouco de tudo do que tudo de um pouco.
- Boas palavras escondem um mau caráter.
- A nossa natureza é o movimento; o completo repouso é a morte.
- Nós não buscamos as coisas, mas a busca das coisas.
- Quem se aflige por pouco, se consola com pouco.
- A diversão nos consola das nossas misérias.
- Como não sei de onde venho, não sei para onde vou.
- O silêncio dos espaços infinitos me apavora.
- É incompreensível que Deus exista e também incompreensível que não exista.
- O coração tem razões que a razão desconhece.
- A justiça sem a força é impotente, a força sem justiça é tirania.
- Não é certo que tudo seja incerto.
- Só entendemos as profecias quando elas acontecem.
- O amor não tem idade, está sempre nascendo.
- O homem está disposto a negar o que não entende.
- As ilusões sustentam o homem como as asas sustentam o pássaro.
- O universo é uma esfera cujo centro está em todas as partes e a circunferência em nenhuma.
- Os extremos se tocam.
- Tudo é grande na alma grande.
- Eu só posso aprovar os que procuram gemendo.
Blaise Pascal

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

David Hume (1711 - 1776)

Hume pretende aplicar o método de raciocínio experimental para entender melhor a natureza humana, usar um método científico, que era usado basicamente para entender os objetos, para interpretar também as pessoas, criando assim a ciência do homem. O filósofo acreditava que se explicarmos o que e como são as pessoas, qual a essência da natureza humana, explicaremos também todas as outras ciências. Isso acontece porque todas as ciências, como a matemática e a física, estão relacionadas diretamente com as pessoas, pois a própria razão, que é o fundamento da matemática e da física, faz parte da natureza humana. Raciocinamos e filosofamos por instinto.
Tudo o que temos em nossa mente é resultado das nossas sensações. Nossas ideias são percepções, mas existem diferenças entre o sentir e o pensar, o sentir está relacionado às nossas sensações mais vivas, mais recentes e que nos marcam mais. Já o pensar está relacionado às ideias, que é uma percepção mais fraca. As ideias são como imagens que com o tempo vão perdendo cor e definição. As ideias dependem das sensações, nós só temos ideias de algo depois de percebermos esse algo. Não existem ideias inatas, ideias que nascem com as pessoas.
As ideias simples que temos através das sensações podem se relacionar e se transformar em ideias complexas através da memória e da imaginação, mas as ideias simples se associam em ideias complexas principalmente através da semelhança, da proximidade no espaço e no tempo e da relação de causa e efeito. Por exemplo, quando olhamos uma fotografia lembramos uma pessoa, pois a imagem da fotografia é semelhante à pessoa, quando pensamos em comida podemos pensar logo depois em geladeira, supermercado ou restaurante, pois geralmente a comida está próxima destes lugares, quando pensamos em gol pensamos em alguém que chutou uma bola, pois o chutar a bola é a causa e o gol o efeito.
Mas essa relação de causa e efeito não pode ser conhecida a priori, pois ela depende da experiência. Nenhuma pessoa quando for posta frente a um objeto do qual não conhece absolutamente nada vai poder raciocinar sobre ele, para que isso aconteça essa pessoa vai ter que experimentar o objeto e descobrir quais suas causas e efeitos para somente depois poder criar sobre ele ideias e conceitos.
Quando observamos algo repetidamente temos a tendência a acreditar que esse algo vai acontecer sempre, essa tendência torna-se um hábito. Através do hábito nós estabelecemos relação entre os fatos, mas isso não quer dizer que essa relação é necessária. Não é porque sempre vimos o sol se levantar toda manhã que necessariamente ele se levantará amanhã. Para Hume essa relação de necessidade existe nos eventos práticos da nossa vida, mas não existe como uma justificação racional e filosófica.
O filósofo acredita que o que chamamos de experiência e realidade nada mais é do que um conjunto de ideias e sensações, mas não existe algo que una essas percepções. Da mesma forma não existe uma subjetividade constante, não existe um eu contínuo, autoconsciente e idêntico. Não existe um princípio de identidade permanente onde cada um de nós pode dizer esse sou eu. Nós somos algo parecido com um teatro móvel e anônimo onde são representadas sensações e ideias.
Outro ponto analisado por Hume é a moral, que para ele é derivada mais dos sentimentos do que da razão. A razão pode até apoiar a moral com algumas orientações, mas o fundamento da moral são mesmo os sentimentos e especificamente os sentimentos de dor e prazer. A virtude provoca prazer e o vício a dor. Por exemplo, quando estamos diante de uma pessoa virtuosa sentimos um prazer característico, e o contrário acontece quando estamos diante de alguém com vícios. A virtude nos provoca o elogio, e o vício a censura.
A moral também não é o fundamento da religião. A religião não fundamenta nem é fundamentada pela razão ou pela ética. A religião nasce do instinto, os deuses surgem por causa do medo que temos da morte e pela inquietação com o nosso fim e a nossa existência depois dela.

Sentenças:
- O gênio está próximo do louco.
- A beleza não está no objeto, mas na mente do observador.
- O hábito é o nosso grande guia.
- Afirmações extraordinárias exigem provas extraordinárias.
- Em cada solução encontramos uma nova pergunta.
- O auto-domínio da mente é limitado da mesma forma que o domínio do corpo.
- O homem é o maior inimigo do homem.
- O trabalho e a pobreza são o destino da maioria.
- A natureza é sempre maior que a teoria.
- A razão é escrava das paixões.
- Nada é mais livre que a nossa imaginação.
- Seja filósofo, mas não se esqueça de ser homem.
- As pessoas reclamam da falta de memória, mas não da falta de entendimento.
- Um milagre é a violação das leis da natureza.
- Um erro é a mãe de outro.
- A ignorância é a mãe da devoção.
David Hume

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

George Berkeley (1685 - 1753)

Berkeley nega a existência da matéria, contesta os argumentos do ateísmo, critica os livres-pensadores da sua época e afirma que ser é ser percebido. Sua filosofia é considerada espiritualista e imaterialista.
Acreditava ainda que os fundamentos da matemática não podem ser compreendidos, assim como não podemos compreender os fundamentos da fé e se acreditamos na matemática maior crença devemos ter nas verdades religiosas.
No entendimento do filósofo, fora da nossa mente não existe uma matéria extensa, pois se a matéria existisse ela teria que ser eterna, imutável e infinita e esses caracteres somente podem pertencer a Deus. As sensações táteis que temos de objetos, cores e sons são simplesmente sistemas de sinais que a natureza emite e que nos são enviadas por Deus, o objetivo desse sistema de sinais é orientar os homens ao que é realmente necessário para que posam viver bem.
Berkeley nega a existência da realidade externa e as sensações são a forma de Deus, através da natureza, se comunicar com os homens.
Ele ligou o ateísmo diretamente com o materialismo e considerava que o principal argumento do ateísmo era a existência de matéria fora da mente, se não existir a matéria como extensão, o principal argumento do ateísmo perde sua validade. Para sustentar sua teoria Berkeley afirma que somente existem as coisas que podem ser percebidas, como um odor que não existe sem que exista uma mente para sentir e interpretar esse odor.
As nossas ideias são sensações ou são pensamentos que temos sobre essas sensações. Desse pensamento decorre, por exemplo, que o tempo é uma sensação e que existe somente em nossa mente, o mesmo acontece com a matéria e o movimento. O que diferencia o modo de ser das coisas é o modo de ser de cada pessoa que percebe. Nós não percebemos as coisas, o tempo ou o movimento, percebemos a ideia que temos das coisas, do tempo e do movimento. Existem somente mentes, nas quais estão as ideias e que são somente sensações.
Geralmente acreditamos que os objetos naturais, como os carros, árvores e computadores tem uma existência real separada da mente das pessoas, mas Berkeley acredita que para que as coisas existam elas tem que ser percebidas por uma mente que faça algum tipo de ideia sobre elas. Os objetos e as percepções que temos deles são a mesma coisa e não podemos separar os dois. Os objetos só existem se forem percebidos e a única substância real é a mente que percebe.

Sentenças:
- Sempre podemos encontrar tempo para envelhecer.
- Ser é ser percebido.
- A verdade é o grito de todos, mas o jogo dos poucos.
- Poucos pensam, mas todos julgam.
- Nada é mais óbvio que a existência de Deus.
- A verdade está nos lábios de todos, mas no coração de poucos.
George Berkeley

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

John Locke (1632 - 1704)

Locke busca conhecer de modo mais profundo as capacidades da razão humana, o que é próprio da razão e o que não é, busca conhecer melhor quais são as reais qualidades e possibilidades da nossa razão. Espera dessa forma definir a origem das nossas ideias e qual é o valor dos conhecimentos que conseguimos ter, definir onde começa e até onde pode ir nossa capacidade de conhecer. Saber sobre o que nosso intelecto pode ou não ocupar-se. Se conhecermos quais os limites da nossa capacidade de conhecimento não vamos gastar energia com coisas que estão além do nosso poder e fugiremos de disputas intelectuais sobre as quais não conhecemos o suficiente. Conhecendo os limites da nossa capacidade de conhecer, conheceremos os limites da nossa ignorância e a falibilidade das nossas ideias.
A razão tem seus limites porque depende da experiência para conhecer, é a experiência que fornece o conteúdo sobre o qual nossa razão vai trabalhar. A razão por si só não consegue produzir e criar nada. Nossas ideias tem origem nas nossas experiências. Pensar e ter ideias são a mesma coisa e o nosso intelecto é passivo e depende da experiência para se tornar ativo. Para Locke não existem ideias inatas, que nascem com as pessoas, as pessoas tiram suas ideias das experiências de sua vida. Essas ideias que tiramos da experiência são ideias simples e nosso intelecto tem a capacidade de combinar essas ideias e criar ideias complexas.
Existem dois tipos de experiências, as externas, das quais derivam as sensações, e as internas, das quais resultam as reflexões. Nossas ideias estão em nossa mente, mas no mundo externo existe algo que tem a capacidade de produzir em nós essas ideias. Essas ideias estão vinculadas à linguagem que nasce da necessidade que os homens têm de se comunicar. A linguagem é a convenção de sinais que representam ideias que usamos acreditando que eles existem também nas outras pessoas.
Sobre a ética, Locke acreditava que ela tem que ser demonstrada racionalmente, pois não podemos apresentar nenhuma regra moral sem fundamentar através da razão a necessidade dessa regra. Acreditava ainda que os principais fundamentos das regras morais são a busca da felicidade pública e evitar a deterioração da sociedade.
Defendia ainda um estado democrático e a liberdade dos indivíduos perante esse estado. As igrejas devem ter liberdade para exercerem seus cultos e o estado e os indivíduos tem que ser tolerantes com as religiões dos outros estados e indivíduos. Todas as pessoas tem liberdade sobre suas consciências.
O homem em estado natural é governado pelas leis da natureza onde todos são iguais e nenhum indivíduo deve prejudicar o outro. Em seu estado natural o homem tem direito à vida, à liberdade e à propriedade, desde que seja produzida pelo seu trabalho. Tem ainda o direito de usar a força para defender os seus direitos, mas não para ferir os direitos dos outros indivíduos. Esse estado natural pode levar os homens à guerra de todos contra todos e é para evitar essa guerra que surge o estado político que vai criar regras comuns para a convivência pacífica. Essas regras serão criadas por um poder legislativo, mas além dele deve haver um poder que vai executar essas regras, é o poder executivo. Mesmo depois de estabelecidos esse dois poderes, o povo conserva o poder de destituir deles os eleitos que no poder se voltarem contra os interesses do povo.

Sentenças:
- Onde não tem lei, não tem liberdade.
- O objetivo do governo é proteger a propriedade.
- A melhor defesa contra os perigos do mundo é conhecê-los.
- A lógica é a anatomia do pensamento.
- O conhecimento não pode dispensar a experiência.
- Uma coisa é encontrar o erro, outra é encontrar a verdade.
- A história é feita de brigas e matanças.
- Os homens vivem em sociedade para protegerem sua propriedade.
- A felicidade é uma condição da mente e não das circunstâncias.
- Devemos interpretar os homens através das suas ações.

John Locke

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

Thomas Hobbes (1588 - 1679)

    Para Hobbes a filosofia tem que ter um fundamento prático, tem que ser útil, e dessa forma descarta a metafísica como sendo de interesse da filosofia. A filosofia tem que se interessar pelos corpos, a explicação das causas desses corpos e as suas propriedades. A filosofia não tem que se preocupar com a teologia ou com Deus, esses assuntos são de interesse da fé e não da filosofia. A filosofia também não trabalha com a história, pois essa se fundamenta em indícios e probabilidades.
    A filosofia tem que estudar os corpos em geral, como os objetos inanimados; os copos dos homens, que são animados; e os corpos artificiais, como o estado. Tudo o que for espiritual ou não corpóreo, não é do interesse da filosofia. Os interesses da filosofia são os mesmos interesses da ciência, ambas buscam aumentar o poder dos homens sobre a natureza.
    Hobbes acreditava que a razão não é uma prioridade humana, pois em certos graus os animais também usam da razão, como quando conseguem prever os acontecimentos futuros com base em suas experiências passadas. O que acontece é que nos homens essa previsão do futuro é muito superior, pois conseguem calcular e modificar o futuro com base nos experimentos passados.
    A razão humana vai muito além e consegue através da lógica tornar mais complexo e profundo o nosso pensamento que derivam e se fundamentam em sinais que são os nomes que damos aos pensamentos ou acontecimentos passados. Esse processo tem por objetivo repassar aos outros seres humanos nossas experiências e pensamentos só que de forma sistematizada e elaborada.
    Raciocinar é calcular nomes e sentenças, esse calcular pode ser uma soma, subtração, multiplicação ou divisão. Os cálculos do nosso raciocínio têm por base os sinais linguísticos que usamos para significar as nossas experiências, que são retiradas dos nossos sentidos, pois a origem de todos os nossos pensamentos está nos sentidos que estão baseados nos objetos externos ao nosso corpo.
    Em Hobbes a ciência e a filosofia são vistas como sendo a busca do conhecimento da origem das coisas e desse conhecimento devemos excluir a teologia, pois o objeto de estudo da teologia é Deus e de Deus não podemos descobrir a origem.
    A filosofia de Hobbes é ainda definida como corpórea e mecanicista. É corpórea porque os corpos são gerados e por isso são os únicos sobre os quais é possível raciocinar. É mecanicista porque somente um corpo pode sofrer uma ação. O prazer, a dor, o querer o ódio e o amor também são movimentos. Em todos esses movimentos não existe um bem e um mal, pois ambos são relativos se levarmos em conta que o bem é aquilo que buscamos e o mal aquilo do qual fugimos e que as pessoas buscam ou tentam se afastar de maneira e de coisas diferentes.
    Mesmo não existindo um bem e um mal como valor absoluto, Hobbes admite que exista um primeiro bem que precede muitos outros, esse bem é a conservação da vida, e o contrário desse primeiro bem é a morte.
    Levando seus princípios para a análise política e social, Hobbes discorda da posição aristotélica que diz que o homem é um animal político. Hobbes acredita que cada homem é diferente do outro e que a vida social é definida pelo egoísmo dessa diferença e pela convenção da convivência em grupo. O Estado em que esses indivíduos vivem não é algo natural, mas artificial, criado por esses indivíduos para alcançar da melhor forma seus objetivos egoístas.
    Naturalmente os homens, devido ao seu egoísmo, viveriam em guerra de todos contra todos, cada um tendendo a defender os seus próprios interesses. Conforme palavras de Hobbes, em estado natural o "homem é o lobo do homem". Nesse estado o homem ficaria prejudicado em seus interesse egoístas pois a qualquer momento poderia perder o seu primeiro bem que é a vida.
    Usando o instinto e a razão ele tenta fugir dessa situação e se auto-conservar. Para se conservarem os homens fazem entre si um pacto social e delegam a um único homem ou a uma assembleia o direito de representá-los. Esse único homem é o rei e ele detém todos os poderes.
    Em torno desse rei ou da assembleia é formado o estado que Hobbes chama de Leviatã. Esse estado defenderá os homens das agressões estrangeiras e das agressões deles contra eles mesmos.

Sentenças:
- O homem é o lobo do homem.
- A natureza é a guerra de todos contra todos.
- O papa é o fantasma do imperador romano.
- O interesse e o medo são o princípio da sociedade.
- Sem a espada os acordos são só palavras.
- As leis são feitas pela autoridade e não pela verdade.
- As grandes sociedades se baseiam em medos recíprocos.
- O ócio é a mãe da filosofia.
- Quem não está contra nós, está do nosso lado.
- Toda infração da lei é uma ofensa contra o estado.


Thomas Hobbes

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

Gotfried Wilhelm Leibniz (1646 - 1716)

    A filosofia de Leibniz pode ser vista como um conjunto de princípios da organização que estabelece relação de liberdade entre vários elementos do mundo. Para Leibniz a razão é possibilidade de estabelecer relações entre esses elementos, uma relação lógica que é organizada através da matemática.
    Leibniz escreveu diversos ensaios, mas não expôs de modo organizado e sistemático seu pensamento filosófico, mesmo assim podemos dizer que ele acreditava na existência no mundo de uma ordem necessária, livre e que se organizava de forma espontânea. Essa ordem se desenvolvia segundo o melhor modo possível dentro das várias possibilidades.
    A criação do mundo tal como o encontramos seguiu uma ordem geral e uma regularidade. Entre as diversas possibilidades de organização do mundo, Deus escolheu a melhor de todas, a que mais se assemelhava à Sua perfeição e a mais simples de todas. Em outras palavras, o mundo que temos e no qual vivemos é o melhor mundo possível.
    O mundo existente era uma possibilidade e se realizou seguindo uma regra que não é necessária mas que foi aceita de forma livre pelos elementos que configuraram o mundo tal como ele é. As possibilidades de organização do mundo são infinitas, mas Deus escolheu, de forma livre, entre elas a melhor possibilidade, e fez isso usando a razão.
    Dizer que o mundo tem uma ordem não é o mesmo que dizer que o mundo é necessário ou dizer que o mundo necessita de uma determinada ordem. A necessidade faz parte do mundo da lógica, da razão, e não do mundo real. Assim Leibniz diferencia a verdade de razão da verdade de fato, as primeiras são imprescindíveis, não obedecem a realidade, se repetem indefinidamente, não trazem nada de novo e são inatas.
    As verdades de fato não têm em si a sua razão de ser e dizem respeito ao mundo real, elas são a realização de um dos inúmeros mundos possíveis. O contrário de uma verdade de fato também pode existir. A ordem da existência das verdades de fato deve ter um princípio, e esse princípio é o que de modo geral a filosofia de Leibniz tenta encontrar.
    Leibniz se pergunta por que é que existe esse mundo em vez de nada? Esse mundo não tem em si uma razão de ser e de existir e como não tem em si uma razão de ser, essa razão deve estar fora desse mundo. Para ele a razão de ser do mundo está em Deus. E se nos perguntarmos por que esse mundo é assim? A resposta é que é assim porque é o melhor mundo possível e por isso Deus escolheu ser de tal forma.
    Outro aspecto inovador em Leibniz é a sua teoria da natureza. Inicialmente ele acreditava que "a natureza não dá saltos", ou seja, para que algo na natureza passe a ser outra coisa ela tem que passar por todos os graus intermediários que existem entre o que ela é e o que ela vai ser, por exemplo, para uma criança se tornar adulta ela tem que passar por todas as fases intermediárias. Mais tarde em seus escritos ele formula o conceito de força, ou de ação motora, que é a capacidade de algo produzir determinados efeitos, por exemplo, os nossos músculos tem a capacidade de movimentar os membros, de movimentar outros objetos e portanto de gerar efeitos sobre os membros e os objetos.
    Mas a força é mais do que o simples movimento, a força é algo colocado na natureza por Deus e não é somente uma capacidade das coisas naturais, mas um esforço de um movimento ou de um efeito que pode acontecer se não for interrompido por uma força maior. A essência das substâncias é o agir. A força é assim a essência do mundo natural.

As Mônadas
São substâncias simples, diferentes entre si, sem extensão, indivisíveis e eternas. Somente Deus pode criara ou destruir as mônadas. Cada mônada vê o mundo de seu ponto de vista e elas não se comunicam entre si. Qualquer mudança na mônada tem que ser o resultado de um processo interno, pois nada externo pode interferir nela.
    Deus é também uma mônada, mas Ele percebe o mundo de todos os pontos de vista possível enquanto que as outras mônadas percebem e representam o mundo somente do seu ponto de vista. Deus é a mônada das mônadas. Mônadas com memória compõem a alma dos animais e as mônadas que tem razão formam o espírito humano.
    Nas mônadas superiores da alma humana os entendimentos confusos indicam a nossa imperfeição e as dependências que temos da matéria. Nossa perfeição, por outro lado, está na força, na liberdade e nos nossos pensamentos diversos.
    Nosso corpo e o corpo dos animais é uma reunião de mônadas que somente se mantêm agregados por causa de nossa alma que é a mônada dominante, as mônadas do corpo e as mônadas da alma seguem leis independentes, as do corpo seguem leis mecânicas e as da alma as leis dos propósitos que pretende alcançar. Corpo e alma vivem em harmonia graças a uma perfeita ordem estabelecida por Deus quando criou ambas.
    As mônadas são isoladas, mas estão ligadas por serem uma a representação da outra. São como as diferentes representações que podemos ter do mundo e todas juntas formam a representação do universo que se manifesta na mônada máxima que é Deus.

Sentenças:
- Temos melhor opinião sobre as coisas que não conhecemos.
- Porque existe algo em vez de nada?
- A natureza não realiza saltos.
- É indigno do homem perder seu tempo com cálculos que as máquinas podem fazer.
- Não é tempo que perdemos, é vida.
- Os fatos fazem os homens.
- Para o espírito a claridade, para a matéria a utilidade.
- Acaso é quando ignoramos as causas físicas.
- Amar é encontrar na felicidade do outro a própria felicidade.
- Mais importante que as invenções é como foram inventadas.

Gotfried Leibniz
Responsável: Arildo Luiz Marconatto

Baruch Spinoza (1632 - 1677)

          Deus para Spinoza é o único motivo da existência de todas as coisas. Deus é a substância única e nenhuma outra realidade existe fora de Deus. Ele é a fonte única e Dele surgem todos os outros elementos. Deus existe em si e foi gerado por si, para existir ele não necessita de nenhuma outra realidade. A essência de Deus pressupõe a sua existência. A substância divina é infinita e não é limitada por nenhuma outra, ela é a causa de todas as coisas existentes, que por consequência são manifestações de Deus.
            Assim sendo, nada existe fora de Deus, e tudo que existe é uma forma de Deus, não como uma criação sem regras ou espontânea, mas seguindo as leis da natureza e respeitando a possibilidade de agir com vontade própria.
            Um dos propósitos de sua filosofia é esclarecer a identidade existente entre nossa mente e o conjunto de todas as coisas da natureza. Para ele essa identidade somente vai acontecer quando conhecermos a nós mesmos e conhecermos também a natureza. O conhecimento da natureza se dá quando entendemos a essência dos objetos ou da sua causa mais próxima. Verdadeiro será o conhecimento que estiver em harmonia e se adaptar à ideia do objeto.
O filósofo estudou o homem e sua condição política, religiosa e moral. Para ele o ser humano é desprovido de vontade, como tudo procede de Deus, tudo também é determinado por Ele. Nós nos julgamos livres porque temos consciência da nossa vontade e achamos que é ela que nos guia, mas quem determina essa vontade é Deus.
Para Spinoza não existe uma finalidade para a existência do homem e nem para a existência da natureza. Deus não criou as coisas para o uso dos homens, nem para agradá-los nem para que os homens agradem a Deus. Pensar que Deus criou as coisas com algum objetivo, como o de que os homens lhe agradem, é o mesmo que dizer que Deus tem necessidade do agradecimento dos homens, e isso é tornar Deus imperfeito. Na natureza tudo é perfeito, pois tudo vem de Deus e é parte dele. Seguindo esse raciocínio, Spinoza descarta a possibilidade da existência de milagres, pois se a natureza é divina e perfeita, qualquer mudança na natureza vai contra a perfeição divina. O milagre é simplesmente um acontecimento natural do qual não conhecemos as causas. Devemos estabelecer em nós um procedimento tal que nos faça admitir que as coisas sejam como são, nos mínimos detalhes, como tem que ser, são imprescindíveis e obrigatoriamente assim porque tem que ser assim.
            Tudo o que existe tem propensão a se manter existindo como o que é e essa é a essência dos seres em geral. Nos homens esse instinto de conservação gera as emoções que são uma mistura desordenada das ideias. A alegria e a tristeza são as principais emoções, a alegria conserva e a tristeza deprecia o ser. O amor e o ódio ocorrem quando a alegria e a tristeza se ligam a algo externo ao sujeito.
            Sobre o direito, Spinoza afirma que existe no mundo um ordenamento essencial, e dele vem o direito natural que tem por origem Deus. O direito natural é para o filósofo as normas que dirigem a natureza. As regras através das quais a natureza se ordena estendem-se até o limite do seu poder. Se o homem seguir as leis da natureza, estará seguindo também as leis de Deus. Se os homens seguirem as regras e ensinamentos recomendados pela razão, o direito natural irá se expressar através dessa razão, que é a natureza do homem. Em sociedade o Estado é o detentor do poder e do direito, mas se o Estado seguir a razão que é própria de cada um dos indivíduos que o compõe ele também estará seguindo o direito natural. O estado limita o poder dos indivíduos, mas não invalida o seu direito natural. O direito do Estado é limitado pelas leis da natureza.
            A fé é submeter-se à vontade de Deus, fé é ter uma conduta de obediência. Os pontos básicos da doutrina religiosa que fundamentam a fé universal para Spinoza são os seguintes: 1 - Deus existe e é justo e misericordioso; 2 - Deus é único; 3 - Deus está em toda parte e conhece tudo; 4 - Deus domina tudo e faz tudo; 5 - Cultuar a Deus é ser justo, caridoso e amar o próximo; 6 - Quem viver desse modo será salvo, os outros não; 7 - Deus perdoa quem se arrepender. O objetivo da fé é a obediência, o objetivo da filosofia é a verdade.

Sentenças:
- É o medo que cria, mantém e alimenta as superstições.
- Uma mesma coisa pode ser ao mesmo tempo boa, ruim ou indiferente.
- O limite do prazer é a saúde.
- Faça primeiro uma ideia positiva, depois uma negativa.
- Se o homem tem uma ideia de Deus, ele deve existir, e o homem tem uma ideia de Deus, portanto...
- A natureza une em si Deus e o homem.
- O homem é uma parte da natureza.
- Todas as coisas e ações na natureza são perfeitas.
- O milagre é um absurdo.
- O ignorante chama de milagre os eventos extraordinários da natureza.
- O ignorante é feliz e infeliz da mesma forma que o sábio.
- Deus não é um juiz.
- Nós não podemos imaginar Deus, mas somente compreendê-lo.
- Compreender é o começo do concordar.
- O desejo é a verdadeira essência do homem.
- O objetivo da Bíblia é ensinar a obediência.
- A fé sem obras é morta.
- A religião sempre se adaptou ao estado.
- A superstição é o meio mais eficaz de governar
- Um entendimento finito não pode compreender um infinito.
- Se não quer repetir o passado, estude-o.
- Buscar a igualdade entre os desiguais é um absurdo
- A natureza abomina o vácuo.
- Não existe medo sem esperança nem esperança sem medo.
- Tudo pode ser causa de prazer, dor ou desejo.
- Adoração é o amor de alguém que admiro.
Baruch Spinoza

Responsável: Arildo Luiz Marconatto

Nicolas Malebranche (1638 - 1715)

          Malebranche divide de forma definitiva a alma do corpo, aprofundando mais ainda o processo iniciado por Descartes. A alma não sente, a alma simplesmente pensa e quer. O corpo é somente extensão, e nada além disso. As ações da alma não provocam nenhum resultado sobre o corpo e este não atua de nenhum modo sobre a alma. Corpo e alma não desenvolvem nenhuma ação recíproca. A alma está separada tanto de outras almas como do mundo físico. A alma está isolada e somente conhece as coisas através da sua relação com Deus.
            Nossa alma não entra em relação com os objetos, ela somente tem ideias deles. Todas as coisas que pensamos sentir são somente ideias das coisas que acreditamos estar sentindo. Nosso conhecimento não vem dos sentidos, mas de Deus, é em Deus que conhecemos todas as coisas. Todas as ideias e conceitos estão na mente de Deus, e é lá que nossa alma busca suas ideias e conceitos.
            Nicolas com isso não quer dizer que nós conhecemos Deus, mas somente que o que conhecemos vem de Deus.  A mente de Deus, a razão universal do criador é que ilumina a alma e todas as inteligências existentes, é na mente divina que estão as verdadeiras ideias, e é lá que nós buscamos as nossas ideias.
            É Deus que produz em nossa alma as modificações e sensações que são produzidas em nosso corpo. É Deus que revela para a alma o que acontece fora dela. Deus imprime na alma as sensações que atingem nosso corpo.
            Para Malebranche a existência de Deus é tão certa como a preposição "penso, logo existo". Deus é infinito e contém tudo em si, ele é imenso, e sua imensidão vai infinitamente além do universo.
            Acredita ainda que a razão não falha, não muda e não se corrompe e portanto é preferível à fé. A razão não pode ter restrições porque Deus é a razão universal. É a fé que conduz a inteligência, mas a fé sem a inteligência não faz com que sejamos virtuosos, pois não nos guia no caminho da verdade.

Sentenças:
- Mesmo o mal quer o nosso bem.
- O espírito do mal se revela através da imaginação.
- O preconceito ocupa parte do espírito e afeto todo o resto.
- O que você admira em Deus se não sabe nada sobre ele?
Nicolas Malebranche

Responsável: Arildo Luiz Marconatto


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

JB da Costa - questões

Codificação da TV Diário nas parabólicas

Globo - programação: semana de 23 a 29/10/2004